Artigos IPMS Porto Alegre



Pintura e Weathering de Veículos Militares

Uma revisão de diversas técnicas - 2ª parte

- técnicas e ferramentas -


panzerserra@gmail.com



Continuação

No artigo anterior, o nosso simpático Staghound Mk III estava com sua pintura pronta e com os decais colocados em seus lugares, devidamente selados com verniz brilhante.





Staghound Mk III decalcado e selado com verniz brilhante.


Foi discutido o método de camadas de selamento do decal, mas o VERNIZ FÔSCO AINDA NÃO FOI APLICADO, pois o kit PRECISA ESTAR BRILHANTE PARA RECEBER O WASH, como vamos explicar a seguir.


Wash - algumas considerações:

No campo das caracterizações de um kit, o wash (ou aguada) vem se transformando no must dos últimos tempos, pois é uma técnica fácil de ser executada e que dá um volume muito significativo ao modelo, acentuando ainda mais a sensação visual de profundidade das pinturas pela técnica da Luz & Sombra, como descrevemos na primeira parte deste Artigo. O wash pode ser interpretado de duas formas, como descreveremos a seguir:

1- Evidenciador de reentrâncias - substitui com vantagens o pré-shading.

2- Caracterizador de pinturas - dá um aspecto de pintura escorrida, lavada, ao kit.


Wash - como evidenciador de reentrâncias

Como o próprio nome diz, nesta técnica o interesse é conseguirmos aplicar mais sombras às porções profundas do modelo, evidenciando ainda mais a sensação de relevo do kit. O método se baseia na diluição de um pigmento de tinta em um solvente não-agressivo a tinta-base (e ao verniz ou Future...) anterior. Um bom exemplo de solvente não agressivo é a Aguarraz. Pode ser usado sobre o verniz acrílico brilhante ou a Future, sem problemas. A aguarraz dissolve os seguintes pigmentos; tinta á óleo sobre tela, tinta esmalte sintética brilhante ou fosca e betume da Judéia. Se você pintou o seu kit com tinta Acrilex Acrílica Brilhante, pode usar o aguarraz ou mesmo a Tinta Guache, pois seu solvente é a água. Mas um solvente como o aguarraz apresenta resultados mais satisfatórios. Para os que não suportam o cheiro da Aguarraz, já usei também, o Solvente Inodoro da Acrilex com bons resultados. O aguarraz não dissolve tinta acrílica. Se você desejar fazer o wash com tinta acrílica como pigmento, use água ou álcool como diluentes, mas o álcool provoca um ligeiro "embranquecimento" na Future... Cuidado! No caso deste artigo, optei em usar como pigmento-base a tinta a óleo de telas, que são extremamente baratas, apresentam ótimos pigmentos, demoram a secar (o que é uma vantagem, pois possibilitam reparos...) e fica extremamente "chique" você dizer que caracterizou o seu modelo com "oils"...ehehehehehe. Para a técnica, você deve arranjar um recipiente de múltiplas cavidades, como embalagens de remédios, embalagens de ovos de codorna e etc. Isto facilita a manipulação do pigmento e do solvente. Como o modelo é de uma cor que não seja o branco, separe dois pigmentos para o wash de reentrância: o preto e o marrom. Como optei por oils (nooooossaa !), compre Preto e Sombra Queimada. O Amarelo de Nápoles, que aparece nas fotos abaixo, é para o Wash como Caracterizador de Pinturas, que veremos mais adiante. Um pincel redondo, macio e de cerdas longas é fundamental.



Material para o wash


Deposite uma pequena porção de cada cor ao lado dos containeres com aguarraz da respectiva cor. Tenha também um "estoque" de aguarraz limpo, ao lado, para remoção de nódoas e limpeza do pincel. Na nossa distribuição de Wash, o Preto representa 70 %, o Marrom 29,5 % e o Amarelo Nápoles, 0,5 %. Vamos começar pelo preto. Com o pincel, pegue uma pequena quantidade do pigmento e dissolva no aguarraz, até obter uma solução diluída da cor. Esta etapa também pode ser executada com o Betume da Judéia (mas eu prefiro o preto... a cor é mais "fechada"... eu uso o Betume para simular escorrido de óleo e de combustível, no veículo...)



Container de tintas e seus conteúdos....


Colete um pouco desta solução de diluente+pigmento com o pincel e encoste as cerdas do pincel na reentrância que você deseja pigmentar. A lisura da superfície e a tensão superficial do solvente farão o resto: a tinta escoa para o seu sítio...



Depositando gotas de solução com pigmento. Wash negro


Repare que você está depositando uma solução e não uma tinta... O ideal é deixar o escoamento da solução fazer o trabalho...



Capilaridade e tensão superficial em ação


Às vezes, erramos a mão e colocamos uma quantidade de tinta muito reforçada, manchando o kit com a tinta. Estas manchas chamamos de nódoa. Podemos limpar esta nódoa imediatamente ou mais tarde. Para isto, basta um cotonete ligeiramente umedecido (e não encharcado...) de aguarraz e uma suave fricção no local manchado. Você pode fazer isto também com um pedaço de pano de algodão umedecido em solvente ou um pincel chato, também umedecido. Observe as fotos da remoção de uma nódoa no deck traseiro do carro de combate:



Excesso de tinta= nódoa


Depois de coletar um pouco de aguarraz limpo com o cotonete, remova o excesso com papel absorvente e...



Cotonete com aguarraz






Preparando para limpar a nódoa...


...a tinta sai da porção mais alta do kit, deixando o pigmento nas reentrâncias. Se você usar a tinta na diluição certa e usar com cuidado, estas manchas serão minorias e facilmente removíveis... Mas para isto, o kit deverá estar totalmente envernizado e seco.



Nódoa eliminada!


Observem a lateral esquerda do casco. Envernizado, mas sem o wash. Embora a tinta esteja fazendo um bom efeito de luz&sombra, este efeito vai ser muito melhorado com o wash:



Staghound sem o wash - lado esquerdo


Depois da primeira camada de wash preto, as depressões ficam mais visíveis e marcadas, gerando profundidade na observação.



Staghound com wash negro


Na foto abaixo, repare que o wash foi depositado, inclusive, nas regiões de "costura" de solda, logo acima e avante da escotilha lateral, que por sua vez, também recebeu o mesmo tratamento... Reparem nos cubos das rodas. Os pneus receberão um wash diferenciado, mais adiante...



Staghound - close do wash


Depositando um wash mais denso na porção do front-glacis do Staghound... Reparem que depositamos a solução na junção pára-lama - front-glacis, assim como nas escotilhas frontais.



Wash pesado


Reparem no destaque das placas de blindagem circular no antigo local da metralhadora de casco.



Staghound - front glacis


Na porção direita do casco, mais tarde iremos demonstrar a técnica de wash como caracterizador de pinturas. Vejam o lado direito antes da caracterização:



Staghound - sem wash - lado direito


Reparem que fiz uns escorridos mais intensos a partir das dobradiças da caixa inferior, pois irão servir para a exemplificação da técnica. Mais tarde, voltaremos com detalhes a este tema...



"Escorridos" nas travas da caixa


Tanto o casco como os escapamentos receberam o mesmo "banho" de pigmento negro. Reparem como as tiras de fita crepe dos jerry-cans se destacam com o wash... Mas aqui cometi um erro: as tiras deveriam ter sido pintadas nesta fase, antes do wash preto. Depois desta foto, pintei as tiras com marrom-caramelo e as caracterizei como couro, e refiz o wash preto ao redor das mesmas... Esta foto estará logo mais abaixo, na etapa do wash-óxido.



Staghound - visão traseira


Na torreta, o detalhe fica por conta do wash em volta de cada rebite, tendo- se o cuidado do uso do pigmento na quantidade certa para evitar as nódoas e os escorridos excessivos, que mais tarde aumentarão a carga de trabalho do modelista, pela necessidade de sua remoção. Mais uma vez, recomendo a cautela e o trabalho com método. Reparem no wash sobre a estrela do topo da torreta. Eis o porque da necessidade de se decalcar antes de se fazer o wash de um kit.



Torreta: reparem limpeza parcial na porção anterior...


Na fotografia abaixo, a porção traseira da porta-treco da torreta evidenciando o wash com certo "desleixo", com nódoas aparentes.



Torreta - porta-trecos de ré - nódoa horizontal.


Agora, a mesma região com uma limpeza de cotonete e aguarraz. O importante é se deixar o pigmento nas frestas, mas limpar as nódoas adjacentes...



Após limpeza...


Na fotografia abaixo, a blindagem frontal da torreta, mostrando inúmeras manchas de wash na periferia de alguns rebites, principalmente nas posições 12:00 e 4:00 horas...(eitcha !). Mas se o seu kit não estiver perfeitamente envernizado, a aparência ficaria bem pior do que a imagem desta torreta, com a impossibilidade da limpeza posterior.



Torreta - nódoas intensas...


Mesma região, após a limpeza executada com pano de algodão umedecido em aguarraz, com o detalhe de ter sido executada um dia depois... O ganho de qualidade do acabamento é evidente... Observe a foto abaixo e comprove:



Torreta após a limpeza...


Bom, após a etapa de wash preto completa (e sua conseqüente limpeza de manchas e nódoas e secagem por pelo menos 48 h...), podemos partir para o wash com o marrom ou vermelho-óxido. O objetivo desta etapa é simular a ferrugem que porventura se formaria em retenções que possibilitem o empoçamento de água... Tenha esta imagem em mente, para escolher onde e quanto depositar de wash- óxido. As superfícies planas requerem maior quantidade do que as inclinadas (que apresentam escorridos desta "água"...) e as inclinadas com mais pigmentos que as verticais....As etapas são, essencialmente, as mesmas...Coloque um pouco de pigmento óxido no container de aguarraz e prepare a solução de pigmento:



Preparando o wash-óxido


Mesmos procedimentos: Coleta do material com pincel, apoiar a ponta das cerdas sobre a reentrância a ser pigmentada e deixar escoar... Vejam os detalhes no casco esquerdo. Reparem que o óxido deve caracterizar também os escorridos, em uma mistura das técnicas entre evidenciador de reentrâncias e caracterizador de pintura. Olhem o detalhe do bocal do jerry-can e dos cubos das rodas:



Staghound - wash-óxido - lado esquerdo


No lado direito, o escorrido foi mais evidente, para a etapa que se seguirá... Notem que o óxido se sobrepõe ao preto, manchando a chapa da caixa.



Staghound - wash-óxido - lado direito. Reparem nas travas da caixa inferior...


Como já foi dito, onde uma suposta água pudesse empoçar, a quantidade de wash-óxido é maior. No upper-deck do Staghound, as depressões dos periscópios é o lugar mais "empoçável" do modelo. Não economize, mas cuidado para não exagerar. Observe os escorridos do front-glacis. Sobre as decais... Detalhes... Detalhes.



Wash-óxido nos periscópios e escorridos no front-glacis


Se você estiver montando o kit em partes separadas (como o modelo exposto: torreta e casco), não esqueça de sempre que completar uma etapa, executar um dry-run, ou uma montagem-seca, para verificar a uniformidade entre os subconjuntos. Nada mais desagradável aos olhos do que uma torreta extremamente envelhecida em um casco assim, não tanto. A uniformidade entre os subconjuntos não deixa de ser um dos pequeno-grandes detalhes que eu vivo citando...



Staghound - wash completo - dry-run


Na foto abaixo, repare no detalhamento das tiras dos jerry-cans. Lembram- se como foi fácil a sua execução e a "vida" que elas dão ao modelo? E o wash discreto evidencia ainda mais este material diferente (no caso, a simulação do couro...). Observem também que as abraçadeiras que retêem os silenciosos do escapamento são pintadas na cor do veículo, mas apresentam um wash pesado, para simular o "ambiente hostil" que é um escapamento...



Staghound - visão de ré - Repare nas fivelas e escapamentos






Staghound - visão anterior em 3/4


Com isto, o veículo já recebeu os dois tipos primários de wash: o preto e o óxido. A partir de agora, faremos o último tipo de wash, que seria o de caracterização de pintura.


Wash - como caracterizador de pintura

Como o próprio nome diz, este wash não busca apenas evidenciar depressões ou relevos, mas matizar e caracterizar a pintura e seus detalhes "ópticos". Quando você for usar um wash caracterizador, o ideal é se usar um tom mais claro da cor-base ou de seus componentes primários. Neste exemplo, usei o Amarelo de Nápoles, que é um tom mais claro de uma das cores primárias do Olive-drab (preto+amarelo). O objetivo deste wash é dar um aspecto "escorrido", lavado à pintura, simulando uma ação intensa de desgaste através de chuva e neve. Não é preciso dizer que veículos de deserto não devem apresentar esta caracterização (heheheheh). Esta técnica também é conhecida com o nome de Lavada ou Aguada. Mas vamos a ela. Mesmo procedimento do wash anterior: Pequena quantidade de pigmento e um container com aguarraz ao lado. Diluição e obtenção de uma solução pigmentada.



Container com pigmento amarelo pronto...


Existem duas formas de aplicação deste wash: em áreas amplas e extensas (como a porção vertical lateral de um casco de Sherman, por exemplo...), você pode aplicar com um pincel largo, levemente umedecido nesta solução e "pincelar" no sentido vertical (como uma água de chuva escorrida...) a lateral do seu tanque. Ou, como no exemplo do Staghound, com um pincel fino, usar como detalhe "esbranquiçado" em uma região específica, como um "escorrido". Veja a foto abaixo, nas lingüetas de travamento da caixa de trecos:



Wash amarelo pronto pára ser esfumaçado... Reparem o óxido nas rodas...


Depois de uma hora de secagem inicial (tinta óleo, lembra-se?), com um pincel chato, macio e seco, você pode dar uma "espanada", sempre no sentido vertical, nesta caracterização que está muito nítida, "esfumaçando" o efeito da pintura e dando um detalhe sutil, sem bordos definidos. Veja a foto abaixo:



Caixa inferior com wash amarelo esfumaçado...Escorrido.


Como já foi citado, este efeito é realmente muito tênue e sutil, mas faz uma diferença dos Diabos, no resultado final. Meu conselho, agora, é dar uma atenção à esposa e deixar o kit secando, pois a manipulação de um kit com tantas lavadas e washs por óleo, não é muito recomendada, enquanto a tinta estiver muito molhada... Vinte e quatro horas não matam ninguém, nesta fase. O kit não estará totalmente seco, mas você poderá manuseá-lo com mais tranqüilidade.

Decorrido esta fase de pré-secagem, só falta agora o wash dos pneus, que não deixa de ser o de Evidenciador de Reentrâncias: uso de tons terrosos ou arenosos para simular terra e/ou barro nas reentrâncias dos pneus. Observe abaixo. Mesma técnica e mesmos procedimentos.



Container com cor de terra






Pneu envernizado...






Staghound - Pneus com wash "terroso"...


Com os pneus pigmentados e "washados", é hora de selar o kit por completo, dando uma demão de verniz fosco no bichão, para acabar com este aspecto de "gato-molhado" que ele tem até agora. Um detalhe: você deve ter reparado que as sucessivas camadas de wash e de efeito luz&sombra podem ter deixado o seu kit meio "chamativo", com contrastes muito nítidos. Sossegue... O verniz fosco dá uma "equalizada" legal na refração da luz que chega até os seus olhos, simulando um efeito suavizante e clareador à todas as etapas antes executadas. O bichão vai ficar com um aspecto mais militar, mais “... de uso intenso", que é o que você quer. Nesta etapa, eu uso o Verniz Fosco da Acrilex em spray, pois já tive alguns acidentes com vernizes diluídos para aerógrafo em que o verniz salpicou o kit todo com manchas brancas e arruinou todo um trabalho bem feito. Hoje, por preguiça, uso este spray... É sensacional e à prova de erros. É só não demorar muito com o dedo na válvula. Ele seca aos poucos e o aspecto inicial brilhante vai sendo substituído por um agradável e honesto fosqueamento.



Staghound na Câmara de Pintura - Fosquear !!!!






Spray Acrilex Verniz Fosco


E, finalmente, eis o aspecto final de seu kit, com todas as técnicas acima descritas e fosqueado. Podemos considerá-lo pronto?


NÃÃÃÃÃÃÕOOOO



Ainda muita água falta correr debaixo da ponte. Nas próximas etapas serão o dry-brush, o chipping, o EPA e o uso de pastéis.



Staghound - fosqueado e seco. Pronto para as próximas etapas





Portanto, continue sintonizado neste mesmo bat-canal, neste mesmo bat- horário, para mais um artigo do Panzerserra: O Terceiro e último, desta série!






Marcos Serra