Artigos IPMS Porto Alegre



Pintura e Weathering de Veículos Militares

Uma revisão de diversas técnicas - 3ª e última parte

- técnicas e ferramentas -


panzerserra@gmail.com



Continuação

No artigo anterior, o nosso valente Staghound apresentava-se com toda a sua decoração pronta, com a pintura luz&sombra terminada e com os banhos de wash-preto e wash-óxido, além de algumas camadas de aguadas em seus costados. Vocês tiveram uma revisão de como se colocar decais sem o silvering e terminamos a Via Sacra com o modelo envernizado com Acrilex Fosco.



Staghound Mk III com verniz fosco


A próxima etapa, agora, é o destaque final do nosso modelo, com o uso do dry-brush.


Dry-brush:

Antigamente, o dry-brush era considerado o mais importante dos efeitos de weathering. Hoje, ele divide esta primazia com muitas outras técnicas, mas ele não perdeu sua, digamos, majestade...

O dry-brush (pincel-seco), como o próprio nome diz, é uma técnica facílima que consiste em aplicarmos uma camada de tinta bem tênue, com um pincel quase seco de tinta, nas arestas e relevos mais agudos do nosso modelo. O dry-brush dá o toque final ao jogo de ilusão de óptica de nossos kits, que se inicia (em profundidade...) pelo wash-preto (depressões...) passa pela luz&sombra, culminando nos ápices do dry-brush. Com isto, nossos olhos são convidados a passear por diversos níveis de "altitudes" dos detalhes do modelo em escala.

O dry-brush pode ser executado ou com o uso de uma tinta prata ou um tom bem mais claro da cor-base empregada. Por exemplo, se você pintar um veículo alemão com três tons de cores em sua camuflagem, você pode empregar tons claríssimos destes tons nas suas arestas. Ou simplesmente aplicar um pincel- seco com alumínio (evite alumínios muito "cromados", pois a sensação é muito falsa... Opte pelos alumínios mais acinzentados...). No nosso caso, optei pelo uso do alumínio-cinza, em esmalte sintético. A melhor forma de se fazer o dry-brush é usar um pincel chato, velho, umedece-lo com um pouco de tinta e remover o excesso desta tinta com um papel absorvente, deixando apenas um pouquíssimo de pigmento nas cerdas do pincel para a aplicação da técnica. Gosto de aplicar o dry- brush com o modelo fosco, pois facilita o "agarre" da tinta...



Material para o dry-bruh: pincel chato e velho, tinta
esmalte alumínio e papel para remover excessos


No caso particular do nosso modelo, o efeito do dry-brush fica muito destacado, pois o Staghound Mk III apresenta muitos rebites em sua torreta, o que é um excelente "campo" para o destaque da técnica. Isto sem contar com o aspecto extremamente angulado do casco e novamente, da torreta. Vamos aplicando ao pigmento com movimentos de "espanar" sobre os ângulos e arestas, pintando apenas os ápices de nossos detalhes:



Aplicando o dry-brush nos ângulos da torreta


Nunca use o pincel encharcado, pois você "pintaria" a cor-base....O ideal é fazer o pigmento aderir apenas nas protuberâncias das peças tratadas...



Quinas e ângulos destacados pelo dry-brush






Modelo finalizado, até a técnica descrita...


Notem a sensação de volume que o dry-brush confere ao modelo. Embora seja uma das técnicas mais antigas, como já foi citada, ela confere uma "realidade" à maquete muito convincente... Não se preocupe com o aspecto um pouco "arregalado" do seu kit com o término da aplicação do dry-brush. O Chipping, que é a próxima etapa, vai disfarçar e envelhecer bastante o seu modelo.


Chipping:

Esta técnica está sendo muito utilizada hoje em dia, para conferir aos modelos em escala, uma sensação de tridimensionalidade e de desgaste realmente incomparáveis. Como já foi citada em outro artigo, esta técnica consiste em promover a impressão visual de "lascamento" da pintura, principalmente nos seus ângulos e em peças de uso intenso. O ideal é que o chipping venha depois do dry- brush e antes do EPA. Como esta técnica já foi anteriormente detalhada, não vou me ater a explicá-la novamente, mas apenas oferecer imagens seqüenciais da caracterização:



Modelo e material para o chipping. Camada inicial: chipping preto


O chipping pode seguir as mesmas etapas do wash, ou seja, uma camada preta e uma camada óxido. Estes dois pigmentos simulam o lascamento da tinta, com o aparecimento das camadas inferiores da chapa, ou seja, o primmer-zarcão ou mesmo o metal oxidado das chapas.



Aplicando o chipping nas áreas escolhidas ( não exagere...)


Um efeito discreto é infinitamente preferível ao exagero. Não abuse da técnica. Como você já deve ter notado, os efeitos vão se somando de forma sutil e progressiva. Não "carregue" demais o seu modelo...



Preparando o segundo chipping: óxido


As proporções do wash também podem ser mantidas no chipping, com uma maior predominância do preto sobre o óxido. Como foi descrito no artigo sobre o chipping, você pode somar diversas técnicas para obter seu resultado final: detalhamento à pincel, esponjamento, técnica salina, pasta de dentes, o diabo !!!!



Chipping preto e óxido aplicados - visão lateral






Chipping preto e óxido aplicados - visão traseira


Seca a tinta do lascamento, vamos finalmente partir para os Pastéis e o EPA...


Pastéis:

Os pastéis são como pigmentos com aglutinantes, que são encontrados em duas apresentações: os secos e os oleosos, dependendo do seu aglutinante. Você pode lançar mão dos dois tipos. Eles têm em comum a forma de bastões e podemos utilizá-lo como um lápis ou raspando-os, para obtermos os seus pigmentos em pó. O melhor tipo para a raspagem é o seco e o melhor tipo para uso como "lápis" é o oleoso. Mas seja qual for a forma escolhida, não se esqueça de guardar os seus restos para uso, pois são materiais de mil e uma utilidades. O aspecto do pastel é sempre o de uma cor difusa, agradável aos olhos em seus efeitos sutis de luz e cor. O grande problema dos pastéis é que eles não apresentam fixação ou estabilidade, devendo ser, obrigatoriamente selados com verniz para sua proteção e perenidade. Mas vamos ao seu uso... No nosso caso, vou usar pasteis secos e oleosos para uma caracterização de ferrugem escorrida. Podem ser usados como poeira, ferrugem, manchas de fumaça e de óleo, enfim, depende da cor e da quantidade do pigmento...Na foto abaixo, estão exemplificados os dois tipos de pastéis encontrados no mercado. O oleoso é sempre bem mais barato e fácil de ser achado, enquanto os secos são mais caros e raros. Procure comprar cores mais afim ao tipo de detalhamento que você deseja. No meu caso particular, comprei cores terrosas e oxidadas, para o weathering de veículos militares.



Tipos de pastéis...


Quando for afinar os bastões, guarde as raspas em potinhos ou containeres. Eles sempre serão úteis. Minha sugestão são estes containeres de pílulas, que você compra (ou ganha...) em Farmácias de Manipulação. Na foto abaixo, estou afinando um bastão de pastel oleoso e guardando as aparas para usar mais tarde, com cotonete, pincel ou mesmo os famosos dedos.



Afilando um bastão de pastel-oil


Agora, o mesmo procedimento com o bastão de pastel seco. Guarde os pigmentos (e neste caso, os gringos chamam o pó de pastel seco de spirit ou filters....Charmoso, né ???) por cores e em containeres fechados....



Raspando um dry-pastel...filter !!!


Uma amostra de como fica nosso estoque de filters and pastels (eitcha que este modelista é chique no úrtimo !!!) ...Imagine você, numa Exposição, explicando que usou pastels, oils e filters...Putz...vai enrolar a língua ....



Containeres com filters


Agora, vamos deixar de besteira e caracterizar o raio do modelo: Primeira etapa, oils pastels(ops...não resisti ...). Com o bastão devidamente afilado, risque o "escorrido" da ferrugem, sempre partindo da premissa que a mais velha e profunda é mais escura e a mais superficial é a mais clara...



Riscando com oil-pastel...


A cor laranja caracteriza uma ferrugem mais nova, mais recente. Os pastéis oleosos são fáceis e tranqüilos de se trabalhar desta maneira. Não se preocupe com um possível excesso de pigmento, pois na próxima etapa, vamos cuidar destes detalhes...



Ferrugem mais nova....


Com a caracterização do "escorrido" pronta, vamos miscigenar os pigmentos, com o auxílio de um pincel chato e totalmente seco. Use o pincel como um espanador, miscigenando as cores e promovendo um degradée dos tons de óxido. Veja as fotos abaixo:



Espanando o pastel...degradée...


Repare que a mancha de ferrugem apresenta-se difusa, com todas as características do real... Não exagere no espanar da coisa, para não remover toda a caracterização...



Aspecto final da miscigenação...


Uma outra forma de se trabalhar com os pastéis é se utilizando de seus pigmentos (filters) em pó. Esta técnica se presta mais ao pastel seco, pois o seu pigmento é facilmente aglutinado com água. Providencie um cotonete limpo e umedeça-o em água:



Cotonete e água...


Remova o excesso da água e uniformize a cabeça do cotonete girando-o entre os dedos. Com isto, os fiapos se prendem à massa da cabeça do cotonete. É muito importante o cotonete estar apenas úmido e não encharcado...



Espremendo e alisando o cotonete...


A seguir, colha uma pequena quantidade do pigmento desejado, simplesmente encostando o cotonete umedecido ao pigmento



dry-filter...


Com muito cuidado e mão leve, "risque" a região a ser caracterizada com o pastel, da forma desejada. No caso do exemplo fotografado, quis caracterizar as laterais do casco do staghound com marcas de sujeira lavada pela suja, com um toque de ferrugem: Trabalho no sentido vertical, simulando o escorrer da água; Veja as fotos:



Preparando para pigmentar o Staghound ...


Mais uma vez, não se preocupe com o excesso de pigmento e, neste caso em particular (pastel seco) com o "vivo" das cores. Quando a caracterização secar, a cor fica muito mais esmaecida...



Excesso de pigmento...


Espane a pigmentação, como na técnica anterior: pincel seco e movimentos no sentido desejado (neste caso, verticais...). Repare no casco e na porção inferior da caixa porta-treco o efeito final obtido



Após a miscigenação...


Você pode fazer inúmeras variações com este tema, desde o desgaste de uma camuflagem após o inverno, como poeira e lama. Crie, ouse, experimente!



Staghound - aspecto final de filters...


Detalhe importantíssimo: após a caracterização a pastel, o kit deve ser manuseado com extremo cuidado, pois estes filters saem com a simples pressão digital. Ou você dá uma selada fina com verniz fosco ou manuseia o kit com mãos bem posicionadas, mesmo, para não perder todo o trabalho. No meu caso, dei uma leve camada de verniz fosco. Não mata ninguém...

Seca esta etapa (seja o pastel ou o verniz), podemos partir finalmente para a misteriosa EPA, que é a técnica do Empoeiramento Progressivo por Aerógrafo....


EPA - Empoeiramento Progressivo por Aerógrafo

Como o próprio nome diz, vamos empoeirar progressivamente nosso modelo, dando um aspecto beeeeem rodado ao mesmo. É claro que esta técnica se aplica apenas em Teatros de Operações Secos, como o Deserto, ou mesmo florestas e ilhas em estação seca. Não use esta técnica no Inverno Russo ou nas Ardennas, por motivos óbvios. Nesses casos, você pode aplicar a variação da EPA que é a famosa DPTCID (Degradação Progressiva da Tinta da Camuflagem de Inverno no Degêlo). Eehehehehehehehe

Mas voltando ao assunto da poeira, esta é uma das últimas caracterizações de nosso modelo, pois convenhamos, a poeira cobre quase tudo que o kit possa apresentar. Esta técnica não deve ser exagerada, pois do contrário, todas as outras "máscaras" serão cobertas por ela. O termo Progressivo vem de uma característica da terra e da poeira de se sobreporem e de apresentarem um tom mais escuro conforme isto ocorre...

Eu gosto de usar estas três cores para a EPA: a Buff ( creme-claro), a Flat- earth (marrom-claro) e a Red Brown (marrom-escuro), todas acrílicas, todas da Tamiya.



O leite da Deusa-Mãe: tintas Tamiya...


A técnica se baseia na progressividade da cobertura da poeira, principalmente a gerada pelo deslocamento do veículo. Use nos pára-lamas, pára- choques e nas porções posteriores e inferiores do chassis do seu carro. Para ilustrar a técnica, vou mostrar um diagrama e fotos da execução da EPA em um pára-lamas dianteiro do Staghound. Carregue o seu aerógrafo com uma quantidade bem diluída de Buff. Este pigmento mais claro representa a poeira mais fina e mais seca, que cobre uma porção mais ampla do seu veículo...Depois de aplicar a Buff, aplique em uma área 50 % menor a Flat-Earth e, finalmente, em uma área 50% menor da anterior, a Red-Brown...Veja o esquema abaixo:



Caracterização progressiva por poeira....


Imagine que a Buff é a poeira da terra (Flat-earth) que ainda esta úmida ou grossa, na red-brown. Se o seu veículo estiver em um ambiente mais barrento, é claro que as proporções mudam em percentagem, mas este degradée de cores é muito interessante de ser mantido. Como já citei, em um veículo com camuflagem de neve, você pode usar uma variação desta técnica com as cores bases da pintura e com barro, dando um aspecto de lavado-sujo ao seu kit. Observe, agora, as fotos das etapas da EPA: Uso do Buff de maneira bem sutil nas porções inferiores do carro de combate. Repare no pára-lama dianteiro, como no desenho acima:



Staghound com Buff...


Agora, a aplicação da segunda camada, mais escura um pouco: a Flat-Earth, também bastante diluída...



Staghound com Buff + Flat-Earth


E, finalmente, o uso da Red-Brown, para simular a terra mais grossa e úmida...



Staghound com Buff + Flat-Earth + Red-Brown


Como você está acompanhando a saga deste simpático carro blindado desde o primeiro artigo, deve ter notado que as técnicas de weathering são somatórias, como camadas, que vão "detonando" o nosso kit e transformando um carrinho de brinquedo em uma réplica do natural, simulando todos os detalhes e sutilezas de um objeto tridimensional aos nossos olhos e sentidos. O ideal é você ir se aprofundando nas caracterizações, de maneira progressiva, que seus modelos terão um "ganho" de realidade e verossimilhança definitivos (eitcha !!!)



Staghound com Buff + Flat-Earth - visão traseira...


Agora, finalmente, nosso kit vai se submeter ao selamento final, com mais uma camada de verniz fosco:



Staghound na Câmara de Pintura Phillips-Panzerserra


Repare que o verniz, após a sua aplicação, mesmo sendo fosco, apresenta um aspecto brilhante que, conforme o kit vai secando, vai adquirindo um aspecto fosco muito bonito e natural, sem pigmentação esbranquiçada. Deixe secar o modelo por pelo menos umas quatro horas, antes da etapa final...



Verniz fosco ainda úmido... Aspecto brilhante...





Metalizando com grafite:

A etapa a seguir é a última e tem como característica o NÃO-SELAMENTO COM NENHUM TIPO DE VERNIZ. Isto é muito importante, pois o grafite perde suas características ópticas metálicas quando envernizado. Mas não se preocupe que o grafite não sai facilmente do seu modelo, ainda mais ele estando fosco....

O objetivo desta etapa é simular o metal sem pintura, mas com certo "polimento" pelo uso e pela constante atricção. deve ser executado em ângulos estratégicos do veículo, em alças e pegas, em escotilhas, em links de lagartas, etc. Raspe um lápis 6B ou compre um frasco de grafite em pó vendidos nas casas de ferragens...Deposite um pouco do pó em uma folha de papel...



Grafite em pó...


Com a ponta do dedo, colete uma pequena porção do pó de grafite para a sua aplicação. O dedo é a melhor ferramenta, pode acreditar...

Se o espaço for pequeno, use um pedaço de borracha de apagar embebido em grafite e, com uma pinça, use a borracha como "dedo"...



A melhor ferramenta do mundo...


Esfregue com firmeza o dedo no local desejado. A grafite adere à superfície fosca do modelo, pigmentando-a com uma tonalidade metálica inigualável....



Esfregando a grafite....






Staghound metalizado...


Observe o resultado da técnica. Você pode refinar este polimento com um pequeno pedaço de tecido de algodão... O excesso que caiu da "esfregação" remova assoprando ou com o aerógrafo sem tinta... Eis o aspecto final. Como disse, não sele o modelo, após esta fase. Destrói o aspecto metálico da caracterização...



Aspecto final....Nojento !!!


E com isto, o nosso modelo está pronto. Pelo menos, para os objetivos propostos para estes três artigos...Agora, vou montar e pintar uma figura para ele e montar e caracterizar algumas mochilas, bed-rolls e redes de camuflagens, além de uns trecos que os nossos bravos veículos militares sempre carregam em seus lombos...Ops...detalhe: os espelhos foram montados com lâmina de alumínio cortados com vazadores e colados com cola - branca....







































Staghound Mark III, cores da 7ª Brigada Blindada - Normandia, 1944





Considerações Finais:

O modelismo (gostaria de re-afirmar) é uma forma muito construtiva de hobby. Construtiva não só porque construímos veículos ou coisas, mas porque construímos nossas habilidades e desenvolvemos nossas aptidões. As técnicas aqui apresentadas não são minhas ou de alguém em particular, mas o resultado de anos de experimentações, perguntas, tentativas, erros, acertos e palpites. Mas o gostoso é partilhar estas técnicas, ver colegas melhorando, desenvolvendo e criando novas e melhores técnicas, para que o nosso hobby continue crescendo forte como os objetos que imitamos. Convido a cada um de vocês, leitores destes artigos, a sempre divulgar os seus resultados e experiências. Pois partilhando, todos aprendem...






Marcos Serra