Artigos IPMS Porto Alegre



A OFENSIVA DO TET DE 1968



Prof. Ms. Gerson Luís Albrecht Anversa & Prof. Ms. Jorge Christian Fernandez





INTRODUÇÃO

A ofensiva militar lançada pelo exército norte-vietnamita em articulação com o Movimento de Libertação Nacional do Vietnã, o Vietcong – a Ofensiva do Tet – foi fator marcante, marco divisório e ponto de inflexão na evolução guerra, na participação militar direta norte-americana, nos destinos de seu aliado sul-vietnamita e no desenvolvimento dos movimentos de contestação social e de defesa dos direitos civis nos Estados Unidos na década de sessenta.

Norte-vietnamitas e vietcongs visavam com este ataque maciço, mais que uma convencional vitória militar, desestabilizar a ditadura sul-vietnamita a partir de dois elementos.

O primeiro deles seria alavancar uma insurreição popular geral no Vietnã do Sul (que não ocorreu) a partir do estímulo gerado pela Ofensiva do Tet, ferindo de maneira mortal o governo de Nguyen Van Thieu internamente.

O segundo seria atingir o seu aliado e mantenedor norte-americano, debilitando a ditadura sulista em seu sustentáculo externo (o apoio ianque).

Para atingir os Estados Unidos, a Ofensiva do Tet buscaria colocar em cheque a intervenção militar direta no Vietnã militarmente e psicologicamente: provocar um aumento no número de baixas norte-americanas; mostrar claramente que a guerra seria sangrenta, desgastante e, principalmente, longa para os norte-americanos; incentivar e catalisar o crescente movimento contestatório nos Estados Unidos contra a sua intervenção no Vietnã; desmoralizar as tropas norte-americanas presentes na península indochinesa pelas baixas e pelo aumento da oposição a sua presença nos Estados Unidos e no mundo.


1. A Ofensiva do Tet: objetivos, evolução, resultados

“Vocês me matarão dez homens, enquanto eu lhes matarei um. Mas mesmo com esta conta, vocês não poderão aguentar e eu vencerei” (Ho Chi Minh).

A presença militar norte-americana no Vietnã foi ascendente na década de 60, principalmente a partir do fraudado incidente do Golfo de Tonquin em 2 de agosto de 1964 (no dia 7 de agosto, foi aprovada pelo Congresso norte-americano a Resolução do Golfo de Tonquim, concedendo plenos poderes ao presidente para iniciar a intervenção no Vietnã), até adquirir um caráter de intervenção maciça em 1967, frente à combatividade do movimento vietnamita de libertação nacional – o Vietcong.



1. Soldados americanos em 1965. Nesta época, a disciplina militar não havia sido abalada pelo desânimo e pela frustração dos combates pouco efetivos, mas altamente desgastantes.
FOTO: Armies of the Vietnam War 2, Osprey Publishing.


Assim, o grande aparato bélico mobilizado pelos Estados Unidos lhes dava garantias da sobrevivência da ditadura do general Nguyen Van Thieu no Vietnã do Sul, sustentada no poder em nome dos interesses norte-americanos.

De fato, sob uma ótica militar puramente formal, não parecia possível uma vitória do Vietcong e do Vietnã do Norte contra a ditadura sul-vietnamita e seus patrocinadores e garantes norte-americanos.

No entanto, os estrategistas do Vietnã do Norte acreditavam que poderiam atingir os norte-americanos em um ponto vulnerável: os crescentes movimentos de contestação político-social e o cada vez mais forte movimento pacifista nos Estados Unidos.

Na década de 60, desenvolviam-se inúmeros grupos de contestação social e de luta pelos direitos civis nos Estados Unidos: Estudantes por uma Sociedade Democrática Students for Democratic Society (SDS ou ESD, em português), Muçulmanos Negros, Panteras Negras, seguidores de Martin Luther King, partidos políticos defensores dos negros, movimentos hippies e pacifistas, etc. – todos críticos em relação ao envolvimento militar norte-americano no Vietnã.

Logo, os norte-vietnamitas organizaram, em meados de 1967, uma ação ofensiva coordenada dos guerrilheiros vietcongues e do exército regular norte-vietnamita.

Os objetivos da ofensiva geral declarados por Hanói foram de promover um levante popular no Vietnã do Sul, provocar o colapso de seu exército e solapar a determinação política dos Estados Unidos de prosseguir com a guerra. Entretanto, parece que Hanói buscava objetivos a mais longo prazo: testar o moral das tropas norte-americanas em sangrentos combates (e sua reação a um grande número de baixas), estimular a opinião pública contrária à guerra a partir das perdas de militares americanos em combate e incentivar o recrudescimento dos movimentos pacifista e de contestação nos Estados Unidos.

O plano previa um extenso ataque do exército norte-vietnamita às províncias setentrionais do Vietnã do Sul e do Vietcong às províncias meridionais e à Saigon.

A ofensiva foi marcada para o final de janeiro de 1968, durante os feriados do Tet (Ano Novo Lunar), ocasião em que, muito provavelmente, grande parte dos soldados do exército do Vietnã do Sul entrariam em licença.

Precedendo a ofensiva, os norte-vietnamitas lançaram ataques junto à fronteira e à base de artilharia de Khe Sanh (no norte do Vietnã do Sul) em dezembro de 1967, visando distrair seus inimigos e afastá-los das suas bases nas grandes e médias cidades do Vietnã do Sul.



2. Marines repousam após uma escaramuça perto de Khe Sahn, 1967.
FOTO: coleção Guerra na Paz.


Além disso, os estrategistas norte-vietnamitas elaboraram outros estratagemas para dissimular as preparações para a grande ofensiva, como a infiltração dos vietcongues na população civil, dirigindo-se oportunamente para locais previamente determinados para o ataque.

Na noite de 30 de janeiro de 1968, após intenso bombardeio com morteiros e foguetes, o exército norte-vietnamita e o Vietcong (somando cerca de 84.000 efetivos) começaram o ataque em massa a cinco grandes cidades, a várias capitais de província, de distritos e a aldeias.

Entre os principais objetivos estavam Saigon, a capital do Vietnã do Sul, e a antiga cidade imperial de Huê. Em Saigon, a própria embaixada dos Estados Unidos, um dos objetivos principais, foi tomada por quinze guerrilheiros vietcongues. Esta ação deixou bem clara a finalidade de causar efeitos psicológicos sobre os soldados e a opinião pública norte-americanos, pois a embaixada certamente tinha importância militar mínima, ainda mais que o custo de sua ocupação seria elevado em termos de baixas dos vietcongues, pois os assaltantes não teriam chances de escapar com vida ao contra-ataque de retomada (como, de fato, não escaparam). De fato, o ataque abalou o mito da inviolabilidade e da segurança das unidades militares e diplomáticas americanas em solo vietnamita.

Os outros objetivos escolhidos em Saigon – o palácio presidencial, o aeroporto de Tan Son Nhut e o quartel-general do exército sul-vietnamita – e em Huê – o palácio imperial e o Comando de Assistência Militar ao Vietnã - também evidenciaram a tática de associar algumas ações de efeitos psicológicos com outras de claro objetivo militar.

A reconquista das cidades por parte de sul-vietnamitas e norte-americanos demandou meses de combates encarniçados, grande número de baixas militares, destruição total de cidades, incalculável número de civis mortos, meio milhão de pessoas desabrigadas e outro tanto de refugiados.

Por sua vez, norte-vietnamitas e vietcongues (principalmente os últimos) tiveram um número muito maior de baixas militares (mais de 30.000) e, do ponto de vista estritamente militar e formal, foram derrotados



3. Body count, ou contagem de corpos: soldados sul-vietnamitas descansam junto a pilhas de cadáveres de vietcongues. Cenas brutais como esta abalavam a opinião pública nos EUA.
FOTO: coleção Guerra na Paz.


Todavia, alcançaram seus objetivos de longo prazo, pois a ofensiva causou grande impacto na opinião pública mundial e, sobejamente, na norte-americana. A ofensiva do Tet minou a determinação dos Estados Unidos de permanecerem na guerra. Certamente, a presença de vietcongues combatendo os ianques em sua própria embaixada deve ter impressionado sobremaneira o povo norte-americano.

De fato, os membros do governo norte-americano, como o secretário de Defesa Robert MacNamara, e o próprio presidente Lyndon Johnson, passaram a rever as suas convicções em favor do envolvimento militar direto no Vietnã.

Além disso, os pedidos de reforços de tropas feitos pelo general Westmoreland foram respondidos, nos Estados Unidos, com um grande recrudescimento dos protestos pacifistas mediante enormes manifestações de massas nas cidades, um posicionamento contrário à guerra por parte dos grandes veículos de comunicação e um estudo encomendado pelo governo que concluía que o envio de mais tropas não lhes garantiria melhores resultados na guerra. Internacionalmente, houve protestos populares mundiais (Europa, Japão, América Latina) exigindo a retirada norte-americana do sudeste asiático. Diplomaticamente, o isolamento dos Estados Unidos crescia na medida em que seus aliados passavam a questionar o seu envolvimento militar na guerra.

Os movimentos de contestação social radicalizaram suas posições e reivindicações, principalmente com relação à guerra: os Panteras Negras tornaram-se ainda mais combativos; do articulado ESD, surgiram os Weatherman.

Por outro lado, o Congresso norte-americano passou a restringir as decisões presidenciais no que tange à guerra a partir de 1969. Em junho de 1970, votou contra a Resolução do Golfo de Tonquim, dificultando o envio de mais tropas. Em 1971, aprovou uma resolução que determinava a retirada destas.

O acirramento das contradições no seio da sociedade norte-americana não tardou a repercutir nas suas forças militares mobilizadas no Vietnã, sobretudo no exército: deserções, insubordinações, atentados a oficiais e consumo de drogas aumentaram significativamente a partir de 1968. A chegada de novos soldados trazia ao teatro de operações as rápidas mudanças sociais que estavam ocorrendo e a influência dos movimentos contrários à guerra. Desenvolveram-se, inclusive, organizações que contestavam a autoridade e a hierarquia, como o Sindicato dos Soldados Americanos, o Movimento por um Exército Democrático e a Resistência do Exército.



4. A partir de 1969, os sentimentos contrários à guerra entre os soldados passaram a manifestar-se com maior intensidade.
FOTO: coleção Guerra Na Paz


A taxa de deserção cresceu 468% entre 1965 e 1971. Só em 1970, cerca de 27.000 soldados desertaram e em 1971 registrou-se o equivalente a 73,5 desertores para cada 1.000 soldados.

As insubordinações e os motins manifestaram-se em 330 condenações pela justiça marcial norte-americana entre 1968 e 1970. As desobediências às ordens e as recusas ao combate, individuais e coletivas, também aumentaram significativamente. Muitas vezes, houve negociações entre oficiais, praças e soldados a respeito do cumprimento ou não de determinadas ordens. Oficiais insistentes na execução de missões consideradas perigosas pelos soldados poderiam sofrer agressões e atentados destes como retaliação ou atitudes de autodefesa. As insubordinações manifestavam também problemas de ordem racial.

Os atentados cometidos contra oficiais (fragging) ocorreram em tamanha intensidade que tornaram-se característica marcante da participação militar norte-americana na guerra. As estatísticas oficiais mencionam 788 atentados com 88 vítimas fatais entre 1968 e 1972, mas estima-se que as ocorrências teriam sido dez vezes maiores. Os atentados ocorriam a tiros, uso de explosivos, emboscadas com minas antipessoais e orientação proposital de oficiais em direção às ciladas inimigas.

O consumo de drogas também aumentou significativamente a partir de 1968. Em 1969, calculou-se que entre um terço e metade dos soldados usavam droga, maconha principalmente, sendo que cerca de 5,5% consumiam heroína. As prisões por consumo de drogas chegaram a 8.440 e 11.058 em 1969 e 1970, respectivamente. Estima-se que cerca de 600.000 soldados tornaram-se viciados em drogas durante a guerra no sudeste asiático



5. O consumo de drogas cresceu e alguns dos efeitos colaterais da presença americana no Vietnã como o aumento da prostituição tornaram-se mais evidentes.
FOTO: coleção Guerra Na Paz.


Todos estes aspectos levaram à progressiva queda do moral nas tropas à beira do colapso e ao início da desintegração do exército norte-americano no Vietnã.

Estes fatores internos e externos levaram cada vez mais às autoridades de Washington convencerem-se da impossibilidade da vitória, pelo menos a curto prazo.

Seis meses após a ofensiva do Tet, o presidente Jonhson ordenou a suspensão dos bombardeios e dos ataques marítimos ao Vietnã do Norte, substituiu o general Westmoreland (um belicista e entusiasta do envolvimento militar norte-americano) pelo general Abrams e tentou negociações com Hanói.

Além disso, aceleram-se as providências para a “vietnamização” da guerra (e, consequentemente, a progressiva retirada norte-americana), reforçando-se o exército sul-vietnamita em efetivos, adestramento e armas.


2. Os Reflexos da Ofensiva do Tet na Sociedade Norte-americana

“O Vietcong não irá se entregar! Eu ví um vietcong levar quatro balas de metralhadora .50 no corpo e continuar lutando...Conversações de paz não afetam esses caras! (Soldado Wroldon Franks, do exército americano - setembro,1968).

“Olhe, eu sou negro. Você é branco. Se vocês brancos não se unem, se vocês brancos sacrificam os seus melhores, o que resta para mim, e porque eu deveria me unir a vocês?” (Um soldado negro dos US Marines a um repórter do New York Times em junho de 1968).



A ofensiva do Tet, marca para a sociedade norte-americana o fim da chamada “era da inocência”. Apesar de bem sucedidos nas operações militares sobre o Vietcong e sobre o Exército norte-vietnamita, os Estados Unidos obtiveram, na verdade, uma “vitória de Pirro”. Os reflexos desta vitória militar traduziram-se realmente, em um fracasso moral que evidenciou os desacertos da política estadunidense referente ao conflito no sudeste asiático.

A ofensiva do Tet serviu como ponto de inflexão, indicando o declínio da intervenção militar americana no Vietnã do Sul; a falência do grupo belicista dos “falcões” (favoráveis à guerra: Gen. William Westmoreland), e a sua substituição pelo grupo dos moderados, os erroneamente chamados de “pombas” (Gen. Craighton Abrams), na verdade mais favoráveis a retirada gradual das tropas americanas do Vietnã, do que uma paz efetiva.

Este processo de retirada lenta das forças estadunidenses, mais do que pacificar, acabou realmente acirrando o conflito. Foi iniciado o chamado processo de “vietnamização e pacificação”, que, em síntese, significava o aumento substancial dos efetivos militares do ineficaz exército sul-vietnamita e o recebimento de quantidades monstruosas de equipamento bélico dos EUA, incluindo material avançado tais como caças a jato Northrop F-5A; transportadores Hercules C-130, blindados médios M-41 e pesados M-48, alem de peças de artilharia de longo alcance, veículos de transporte de pessoal, helicópteros, etc. Entregava-se bases e instalações avançadas as forças militares e policiais do Sul, no sentido de aumentar sua capacidade operacional e submeter os elementos rebeldes, leia-se o Vietcong.



6. A praticidade e a simplicidade do combatente vietcongue contrastava com o display tecnológico apresentado pelos norte-americanos e seus aliados.
FOTO: revista Manchete, abril 1975.


Não havia nada de paradoxal neste novo posicionamento adotado pelos EUA. Continuava-se a “luta contra o comunismo”, mas evitava-se, no entanto, o essencial para a sociedade norte-americana: a visão aterradora dos sacos pretos e caixões de metal contendo o que restara das esperanças de futuro de uma nação - os putrefatos corpos de jovens americanos, mortos em uma guerra que não lhes dizia absolutamente nada a respeito. Assim, a vietnamização escondia a real dimensão da derrota moral dos norte-americanos no Vietnã.

Esta derrota moral, no entanto, podia ser vislumbrada por observadores mais lúcidos mesmo bem antes de 1968 e da ofensiva Tet. Desde 1965, estudantes e setores médios da sociedade estadunidense, manifestavam-se contra o envolvimento americano na guerra do Vietnã. Com a escalada do conflito, este tipo de reivindicação tendia a aumentar progressivamente. A contestação ao Establishment reunia variados setores do amplo espectro social, cada qual com suas exigências específicas, pretendendo ocupar uma posição na excludente sociedade norte-americana e fazer valer seus direitos.



7. Um grupo de estudantes protesta numa universidade em 1968. Nesses protestos, as Forças de Segurança reagiam de forma violenta. Numa ação contra manifestantes da Universidade de Kent, em 1970, quatro estudantes foram mortos a tiros pela polícia, num episódio que chocou o povo americano.
FOTO: revista Manchete, Abril 1968.


Os movimentos de contestação social radicalizaram suas posições e reinvidicações, frente à escalada da guerra: os Panteras Negras avançaram de sua posição de defesa dos direitos dos negros (“autodefesa”) para o apoio (inclusive armado) à luta do Terceiro Mundo contra o imperialismo norte-americano (como no Vietnã); do ESD surgiram os radicais Weatherman.

Os movimentos negros (Muçulmanos Negros, Panteras Negras, seguidores de Martin Luther King e de Malcolm X), representantes de uma minoria que situava-se, essencialmente, na base da pirâmide social buscavam, além de uma identidade própria, a melhoria concreta de suas condições materiais. Inicialmente, os grupos negros revestiram-se de um caráter reformista e pacífico, principalmente aqueles oriundos da classe média. Contudo, o descaso e desrespeito do governo americano com a questão negra, levou à aceleração dessas contradições e a um processo de radicalização da minoria negra, que passou a organizar-se em torno de grupos radicais que pretendiam mudanças mais significativas e estruturais na sociedade americana. A afirmação do chamado Black Power, o “poder negro”, passava pela negação do sistema “branco, cristão e anglo-saxónico” e de suas posturas. Logo, a guerra do Vietnã era coisa de “brancos” e uma manifestação nociva do imperialismo americano.

Outro grupo que atacava frontalmente a estrutura sócio-política e econômica dos EUA era o dos estudantes. Um grupo bastante articulado, devido a sua posição e origem social privilegiadas. Desde o início do conflito, os estudantes organizaram–se em grupos anti-militaristas e pacifistas, questionando a legitimidade da guerra e o papel desempenhado pelos EUA na mesma. A contestação juvenil possuía um caráter amplo e variado: desde os alienados hippies, passando pelos intelectuais conscientizados do Students for Democratic Society (SDS), e chegando ao radicalismo extremista dos Weatherman, grupo armado dos EUA que pregava a oposição violenta ao imperialismo ianque.



8. Transferidos para o campo de batalha, os problemas raciais observados na sociedade americana tiveram sérias consequências. Organizações do poder negro, como os Panteras Negras, difundiram-se rapidamente entre os combatentes dos EUA no Vietnã, que adotaram atitudes de contestação à instituição militar e à guerra. Em 1968-69, 58% dos indivíduos envolvidos em questões disciplinares eram negros.
FOTO: coleção Guerra Na Paz


Esta movimentação no seio da sociedade americana, não tardou em chegar ao longínquo Vietnã, onde estas idéias, tidas como “subversivas”, encontraram um caldo de cultivo extremamente fértil. Uma forma de “contágio” básica, dava-se pela mobilização e recrutamento de pessoas oriundas dos guetos negros, ou dos estudantes brancos, que então levavam seus questionamentos para a frente de batalha.

A recíproca também era verdadeira e os movimentos de contestação nos EUA retroalimentavam-se com os veteranos desiludidos que chegavam trazendo em sua bagagem todos os horrores e traumas da guerra, fornecendo, desta forma, inquestionáveis argumentos a favor da paz.

O desenvolvimento dos meios de comunicação, tornou, por outra parte, a guerra mais real para a população dos EUA. A televisão passava a transmitir o conflito e gerava inquietação geral. Pela primeira vez na história, assistia-se desde a poltrona da sala a um massacre de civis; a um bombardeio com napalm; ou ao assassinato a sangue frio de um prisioneiro indefeso, entre outros eventos estarrecedores. O governo pretendia uma visão pasteurizada dos acontecimentos, mas a mídia insistia em apresentar uma visão crua, realista, e porque não, lucrativa do conflito.

As justificativas governamentais, a justeza do conflito; esvaziavam-se perante a população durante os noticiários vespertinos, nos quais temiam assistir à morte ou à mutilação dos seus próprios entes queridos, que serviam no Vietnã.

Após a brutal Ofensiva do Tet de 1968, a situação interna dos EUA agravou-se sensivelmente. Os vários setores da sociedade, que faziam suas próprias leituras da realidade, passaram a criticar a guerra com maior intensidade, mesmo aqueles que não o haviam feito anteriormente, passaram a fazê-lo. Por exemplo, ficava claro para os setores conservadores que os Estados Unidos não tinham condições de uma vitória rápida sobre o Vietcong, por um lado. Por outro lado, o custo social da guerra tornava-se elevado, pela perda de vidas americanas, o que prejudicava a lucratividade econômica da guerra. Neste sentido, a política de “vietnamização” representava uma saída viável e rendosa.

Para as camadas médias (a chamada maioria silenciosa), politicamente apáticas nos EUA (exceto alguns grupos), a paz ou a guerra para o Vietnã, pouco importavam em sí. O que os incomodava realmente, era ver seus filhos morrendo pela TV. Desta forma, foram estes os principais eleitores de Nixon, um republicano ultra-conservador, eleito sobre a consigna de “trazer os rapazes de volta pra casa”.



9. Embora liderando uma patrulha de combate, o primeiro-tenente Jesse Rosen ostenta uma tarja preta em solidariedade às manifestações pacifistas que eclodiam nos Estados Unidos. O protesto de um oficial engajado em combate demonstra bem a intensidade dos problemas que afetaram o Exército americano nos últimos anos de seu envolvimento na Guerra do Vietnã.
FOTO: coleção Guerra Na Paz.


No Vietnã, todas as contradições da sociedade americana pareciam exacerbar-se. Apesar da diminuição das baixas americanas após o Tet, o moral das tropas dos EUA decaia em espiral. Os soldados engajavam-se em movimentos pacifistas, recusavam-se a lutar, ou desertavam. Problemas disciplinares afetaram a hierarquia das Forças Armadas: rebeliões, execuções de oficiais, formação de grupos clandestinos dentro dos quartéis.

Somava-se ainda o crescente problema de abuso das drogas e a transposição para o Vietnã, da questão racial presente nos EUA. Estava decretado o colapso moral das forças combatentes no Vietnã. As forças armadas dos EUA, especialmente o exército, sofreriam uma desagregação estrutural intensa, e a recuperação dos seus valores militares e “virtudes morais”, somente se daria na década de ’80, com a retomada de uma política externa agressiva por parte da administração Reagan.



10. Soldados americanos em 1970. Observe-se a aparência pouco marcial e desleixada. O “look” destes soldados aproxima-se mais a de um “bando armado” do que a de um exército regular de uma superpotência.
FOTO: Armies of the Vietnam War 2, Osprey Publishing


A ofensiva do Tet serviu para despertar a sociedade norte-americana do seu letargo idílico representado no American Way of Life. A inefabilidade do sistema norte-americano foi testada e falhou. O elevado moralismo da sociedade americana, viu-se fortemente afetado com as denúncias de crimes de guerra e abusos cometidos por americanos e seus aliados sul-vietnamitas contra seu próprio povo. O discurso que apregoava a defesa do “mundo livre contra a ameaça comunista”, esvaziou-se diante da realidade do conflito: um pequeno pais resistindo bravamente a um regime impopular e a uma invasão estrangeira. “Por que lutar?” “Para quem lutar?” Essas questões marcariam profundamente a sociedade americana, e volta e meia, os fantasmas esfarrapados dos veteranos do Vietnã, assustam a algum governante americano com pretensões intervencionistas.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme observamos ao longo do texto, a ofensiva do Tet, representou um momento crucial no conflito do Sudeste asiático. Tanto para os norte-vietnamitas e o Vietcong, que lançaram a ofensiva, quanto para os americanos e sul-vietnamitas, que resistiram a ela.

Os resultados da ofensiva foram contraditórios e ambivalentes para ambas as partes. Para os atacantes, a perda numérica foi elevadíssima e acabou deixando o Vietcong fora de combate por um bom tempo, o suficiente para se reorganizar, mas nunca recuperou sua antiga força de combate.

Os seus aliados do Norte, apesar das perdas, conseguiram alguns de seus objetivos iniciais. Em primeiro lugar, testaram suas próprias forças em combate, e puderam evidenciar certas falhas, que futuramente seriam corrigidas quando da invasão ao Sul em 1972-73. Em segundo lugar, testaram a capacidade combativa em larga escala dos norte-americanos e dos sul-vietnamitas, e a partir de então, começaram a explorar os pontos fracos do inimigo.



11. Com rajadas de metralhadora automática M-60, soldado americano mantém o inimigo à distância.
FOTO: coleção Guerra Na Paz.


E, por último mas o principal, foi o de terem conseguido minar de vez a capacidade e determinação dos EUA de continuarem a guerra, especialmente dentro da própria América, onde a agitação pacifista, antes restrita a alguns grupos isolados, já encontrava ecos de aceitação no sociedade americana de um modo mais amplo. Contudo, a esperança do Vietcong e dos norte-vietnamitas, em um levante popular em apoio a ofensiva comunista, revelara-se uma mera especulação utópica, que provavelmente Hanói nunca levara a sério.

Para os militares estadunidenses, a derrota temporária dos comunistas no plano militar significou muito pouco. A derrota era apenas circunstancial, e deixou claro que o inimigo era aguerrido e determinado o suficiente para alongar o conflito indefinidamente. Ou seja, até cumprirem seus objetivos finais de reunificação do país. Assim, davam-se conta que o inimigo possuía uma motivação real, tangível. Enquanto isso, ainda tentava-se motivar as desanimadas tropas americanas com um vazio e mal intencionado discurso de “defesa do mundo livre contra a ameaça do comunismo”, no qual, a essas alturas, certamente muito poucos acreditavam.

Para a sociedade dos EUA, a ofensiva do Tet teve um efeito devastador, mas ao mesmo tempo, catalizador: provocou reações espontâneas e massivas em todos os níveis sociais, em contra da guerra do Vietnã, mas especialmente contra a participação americana na mesma. Certamente, não devemos interpretar isto como uma manifestação desinteressada e solidária do conjunto da “pacífica” sociedade americana. Provavelmente, a maioria das pessoas que integraram o movimento anti-guerra( principalmente após 1968), o faziam devido a interesses individuais: trazer um filho; um irmão; noivo ou um marido, de volta para casa. Nesse sentido, a contestação ao Establishment, não significava pretender a eliminação do mesmo ou dos seus valores intrínsecos. Assim, o individualismo continuaria a ser, acima de tudo, a “marca registrada” do modo de vida norte-americano.



12. As reais vítimas da guerra: pequeno vietnamita mutilado posa para as câmeras. A divulgação dos horrores da guerra pela mídia mundial levou a uma condenação geral do papel central dos EUA neste conflito e teve enormes repercussões.





BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ARNOLD, James R. Ofensiva del Tet 1968 – Momento Decisivo en Vietnan. Ediciones del Prado, 1994. Série Osprey Military.
BISHOP, Chris Vietnam War Diary 1964-1975. New York: Military Press, 1990.
RUSSELL, Lee E. Armies of the Vietnam War 2. London: Osprey Military, 1991.
SAVAGE, Paul L., GABRIEL, Richard A. Coesão e Desintegração no Exército Norte-americano: uma perspectiva alternativa In: A Defesa Nacional, Ano 65, n. 675. RJ, Jan-Fev/78.
Vários Autores, Guerra na Paz. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1984. 5 volumes.
VIZENTINI, Paulo G. F.. Guerra do Vietname. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1991.
Revista MANCHETE, ABRIL 1968 – ABRIL 1975



ANEXO I – Dados Estatísticos