A aviação de caça na primeira guerra mundial
Paulo Guimarães
Em 28 de junho de 1914, nacionalistas sérvios assassinaram a tiros, o arquiduque Francisco Ferdinando e esposa, herdeiros da coroa austro-húngara que encontravam-se em visita à Sarajevo (Bósnia-Herzegovina). Investigações encontraram o assassino, um jovem pertencente de um grupo sérvio chamado Mão Negra, contrário a influência austro-húngara na região dos Bálcãs. O império austro-húngaro não aceitou as medidas que as autoridades sérvias tomaram sobre o crime e declararam guerra à Sérvia em 28 de julho de 1914.
Nessa época é que o “aeroplano” deixa de ser um veículo de esporte e recreação, tornando-se uma arma mortífera, nas mãos dos primeiros ases do céu.
Alemanha, França e Grã-Bretanha já haviam iniciado a exploração do avião para fins militares. Havia um mercado promissor, composto por cerca de vinte países, entre eles: Rússia, Itália e Japão. Os números que temos acesso, apontam cerca de 246 aviões militares na Alemanha, 244 na Rússia, 138 na França e 113 na Grã-Bretanha. Isso, as vésperas da Guerra.
No início da guerra, os principais teatros de operações estavam nas frentes oriental e ocidental, alemãs. Devido à rivalidade secular entre a Alemanha e a França, a frente ocidental destacou-se na utilização dos aviões em combate. Podemos dizer, com certeza, que o front ocidental protagonizou o refinamento dos aviões militares e suas táticas.
A ofensiva alemã na Bélgica, contava com cerca de sessenta monoplanos Taube e biplanos de dois lugares Albatros e Aviatik. Mais alguns poucos aeroplanos estavam destacados para a defesa das cidades fortificadas de Metz e Estrasburgo. Os franceses, por sua vez, contavam com vinte e uma esquadrilhas de Blériot, Breguet, Farman, Deperdussin, Voisin, Caudron e Nieuport. A Grã-Bretanha, que entrou na guerra justamente devido a violação da neutralidade belga, invadida pela Alemanha, reuniu sessenta e três aeronaves dos modelos: Royal Aircraft Factory B.E.2, 2a e B.E.8 XI da Blériot, Farman e Avro 504. Essas aeronaves formavam as esquadrilhas 2, 3, 4 e 5 do Real Corpo Aéreo, o famoso “Royal Flying Corps”, que chegou à França em agosto.
Devido ao fato dessas aeronaves estarem dispersas em uma área muito grande, era raro engajarem-se em um combate aéreo. Mas, por serem consideradas importantes para evitar os vôos de reconhecimento do inimigo, foi instalada a bordo uma metralhadora. O uso da metralhadora em aeronaves com hélice a frente era muito difícil. A primeira aeronave britânica a incorporar uma metralhadora frontal “de série”, foi o Vickers F.B.5 Gunbus. Nesse modelo, o motor e a hélice ficavam situados atrás do piloto e do observador.
Na França, os testes com metralhadoras frontais eram realizados desde 1913. As hélices foram revestidas com lâminas de aço, afim de protegê-las dos projéteis de suas próprias armas. A primeira aeronave alemã derrubada com a utilização de uma metralhadora de dentro de uma aeronave, foi um biplace de reconhecimento. Feito esse realizados pelos sargentos Quenault e Frantisek, em 5 de outubro de 1914. O observador francês apoiou sua Hotchkiss na lateral do cockpit e disparou uma rajada contra o inimigo.
O combate com armas frontais teve início em abril de 1915, quando Roland Garros, pilotando um Morane Saulnier Type L, destruiu três aeronaves alemãs. Porém, ainda no correr desse mesmo mês, Garros foi obrigado a aterrissar atrás das linhas alemãs.
 Vickers F.B.5 Gunbus
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Os alemães também sentiam a necessidade de fazer com que suas aeronaves disparassem com armas frontais. Quando o holandês Anthony Fokker preparava o primeiro de seus monoplanos tipo E, ele projetou um mecanismo que impedia os disparos no momento em que a hélice estivesse na frente da arma. Em 1915, os Fokker Tipo E entraram em serviço.
Destinavam-se inicialmente às escoltas das aeronaves de observação, mas nas mãos de homens como Oswald Boelcke e Max Immelmann, logo se percebeu o verdadeiro potencial de combate. Os pilotos alemães passaram a adotar uma tática ofensiva na qual, se posicionavam na retaguarda de seus inimigos, aproximando-se para disparar uma rajada mortal, vindos de um ponto cego ou a favor do sol. Nasceu assim, o “flagelo Fokker”, contra o qual, nem britânicos, nem franceses, tinham uma solução imediata.
Somente no final de 1915, os caças franceses Morane e Nieuport começaram a devolver algum equilíbrio aos combates. Esses possuíam metralhadoras frontais instaladas na asa superior que, quando disparadas, não atingiam a hélice.
 Fokker E.III
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Pesquisadores britânicos desenvolveram um mecanismo chamado Sopwith-Kauper. Esse mecanismo foi instalado nas aeronaves de reconhecimento armado Sopwith Pup, fornecidas para o Real Serviço Aéreo Naval em setembro de 1916. Em outubro de 1916 formou-se a 8ª esquadrilha do Real Serviço Aéreo Naval, com aparelhos Pup, Nieuport e Sopwith 1 ½ Strutter. Essa esquadrilha tornou-se famosa, por abater, em dois meses de atividade, vinte aeronaves alemãs. O Sopwith Pup era uma pequena aeronave de reconhecimento, armada com apenas uma única arma dianteira, porém seu manejo era considerado excelente!
No lado alemão, os Fokker tipo E, começavam a tornar-se obsoletos e em meados de 1916 surgem os biplanos de reconhecimento armados, entre eles os Albatros D.I e D.II, o Fokker D.I e o Halberstadt D.II. O Fokker e o Halberstadt possuíam apenas uma arma frontal, porém o Albatros inovou, com a introdução do “par” de metralhadoras, que seria o armamento-padrão para os caças nos próximos quinze anos.
Os franceses ainda insistiam com seus Nieuport. Os Type 17 entraram em combate na primavera e no verão de 1916. Em geral, eram equipados com uma arma sincronizada sobre o nariz e uma metralhadora de tiro livre na asa superior.
 Sopwith Pup
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 Albatros D.I
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 Nieuport 17C1
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Antes do término de 1916, entrou em serviço o Sopwith Triplane, um aperfeiçoamento direto do Pup. Essa aeronave foi encomendada para ser utilizada pelo Real Serviço Aéreo Naval, com o objetivo de evitar a tomada da superioridade aérea pelos alemães, com os Albatros D.II. Nesse mesmo tempo, o Real Corpo Aéreo encomendava aos franceses o Spad VII. Conforme era esperado, o Triplane fez frente a ameaçadora supremacia alemã nos primeiros meses de 1917. Tornou-se famoso o “Black Flight” da 10ª esquadrilha do Real Serviço Aéreo Naval, com o Triplane pilotado pelo canadense Raymond Collishaw, que provavelmente destruiu sessenta aeronaves inimigas.
Desde o final de 1915, a força aérea alemã efetuava uma gradativa reorganização, quando foram criadas unidades de patrulha ligadas à infantaria. Do verão de 1916 até abril de 1917, foi criada uma força de caças e os pilotos treinados para dar proteção à essas unidades. Eram 37 Jagdstaffeln, conforme planejadas por Oswald Boelcke. A maioria desses Jastas eram equipados com novos e magníficos Albatros D.III.
Com esse novo conceito aplicado pelos alemães, as baixas entre os aliados aumentaram de modo alarmante. No início de abril, toda uma formação de R.E.8 da 59ª esquadrilha foi abatida por seis Albatros D.III, liderados por aquele que veio a se tornar um dos mais famosos pilotos de caça da história: Manfred Freiherr Von Richthofen, o “Barão Vermelho”. Durante o mês de abril, o Real Corpo Aéreo perdeu 316 pilotos e observadores. Esse período ficou marcado na guerra como “o abril sangrento”.
 SPAD VII - Conservado em um museu
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 Albatros D.III - O piloto na foto é Ernst Udet
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Com o restabelecimento da superioridade aérea alemã, em abril de 1917, também iniciou um período conhecido como “A Era dos Ases”. Vários pilotos tentavam alcançar as marcas de Boelcke, Immelmann e Hawker. Pelo lado britânico, haviam homens como Edward Mannock, que obteve 73 vitórias, sendo o recordista entre os pilotos do Real Corpo Aéreo. Os canadenses tiveram William Bishop, com 72 vitórias e os sul-africanos, Beauchamp-Proctor, com 54 vitórias. Os franceses tiveram um trio legendário: René Fonck (75 vitórias), Georges Guynemer (54 vitórias) e Charles Nungesser (45 vitórias). Todos esses pilotos foram agraciados com a “Victoria Cross”, a mais alta condecoração britânica.
No final de junho, Manfred Von Richthofen formou o seu “circo”, reunindo mais de trinta aviões. Cabe destacar ainda entre os pilotos alemães: Paul Bäumer (43 vitórias) e Josef Jacobs (41 vitórias).
No final do ano de 1917, a eficiência do “circo” de Richthofen e o elevado número de ases, refletem as profundas alterações nas táticas de combate aéreo e nos treinamentos utilizados. Os caças já não voavam mais sozinhos nos céus e sim em esquadrilhas organizadas com táticas ensaiadas e discutidas. Nesse período, o Camel já era considerado uma das melhores aeronaves da frente ocidental e já estava em produção o S.E.5a, versão aperfeiçoada do S.E.5.
Graças ao S.E.5a, a táticas bem planejadas e ao treinamento que ele mesmo ministrava à seus pilotos, é que Edward Mannock conseguiu creditar 36 vitórias em sua folha, em apenas três meses de combate. Ele foi o comandante da Esquadrilha 74, conhecida como “Os Tigres”.
Os Estados Unidos somente entraram na guerra em abril de 1917, através de voluntários que se juntaram as esquadrilhas anglo-francesas. O envio de uma unidade autônoma só ocorreu no mês de setembro, reforçadas por mais duas unidades no início do ano de 1918. Equipadas inicialmente com aeronaves Nieuport, tiveram seu batismo de fogo em abril de 1918, quando os tenentes Campbell e Winslow abateram duas aeronaves alemãs.
 S.E.5a
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 Richthofen - O famoso Barão Vermelho
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Com o objetivo de conquistar a vitória antes da chegada em peso dos reforços americanos, os alemães lançaram uma ofensiva durante o mês de março de 1918. Porém, a superioridade numérica e o melhor treinamento dos pilotos franceses e britânicos foram cruciais para eliminar dos céus os Albatros D.V, D.Va e os Siemens-Schuckert D.III, utilizados como aeronaves de escolta.
Em abril, o ânimo da força aérea alemã já não é o mesmo. A retomada da supremacia aérea se torna uma tarefa impossível. Outro duro golpe foi a perda de Richthofen, abatido, depois de ter conseguido, no mínimo, 80 vitórias. Quando a ofensiva alemã foi considerada frustrada, o ritmo de chegada à França de esquadrilhas britânicas, já estava na casa de uma por semana. Essas esquadrilhas vinham equipadas com Camel, Bristol Fighter e S.E.5a.
Os americanos, quando substituíram seus Nieuport, o fizeram pelo Spad XIII. Os pilotos americanos não se adaptaram aos Camel, devido à suas complexas características de vôo. Os maiores ases americanos foram o Capitão Eddie Rickenbacker (26 vitórias) e o Tenente Frank Luke (21 vitórias).
 SPAD XIII
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Em 18 de agosto, Flandres foi o palco da última grande ofensiva britânica. Embora a Alemanha já fosse considerada um inimigo desmoralizado e desmotivado, muitos combate memoráveis foram travados. Grandes pilotos alemães pereceram nesse combate, como Erich Loewenhardt, Werner Woss e Kurt Wüsthoff.
Provavelmente, o melhor avião de escolta franco-britânico, foi o Sopwith Snipe, que chegou ao front em pequeno número, semanas antes do armistício. Exemplo da maturidade alcançada pelas aeronaves durante a Primeira Guerra, o Snipe foi o escolhido para equipar a força aérea inglesa nos tempos de paz, ficando em serviço durante boa parte dos anos 20.
 Sopwith Snipe
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BIBLIOGRAFIA BÁSICA
Esse texto é um condensado de algumas publicações que possuo. As fotos foram retiradas de enciclopédias públicas virtuais.
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Paulo Guimarães
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