Os borbardeiros da primeira guerra mundial
Paulo Guimarães
O primeiro bombardeio registrado na história da aviação ocorreu em 15 de fevereiro de 1915. Eram aeronaves russas do tipo Ilya Muromets. Essas grandes aeronaves foram desenvolvidas a partir do quadrimotor Bolshoi, projetado por Igor Sikorsky, antes da Primeira Guerra Mundial. Operavam geralmente a noite, impunes mas com pouca precisão. Constam nos registros a produção de 73 aeronaves, até a suspensão temporária da fabricação, na Revolução de 1917.
 Réplica de um Ilya Muromets no Museu de Monino, Rússia.
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Quando os Ilya Muromets iniciaram suas atividades, os alemãos não consideravam prioritário o emprego de aviões bombardeiros: seus dirigíveis à hidrogênio eram um veículo adequado para lançar bombas contra as potências ocidentais. Porém, as intimidantes propagandas aliadas mostrando o Kaiser Guilherme II e seu Chanceller Bethmann-Hollweg como “humanos estupradores” levaram os líderes políticos alemães à cassarem a permissão para ataques aéreos ilimitados contra alvos civis. Essa orientação foi seguida ao pé da letra pelos comandantes dos dirigíveis alemãos encarregados de bombardear a Grã-Bretanha.
Em meados de 1915, os comandantes dos dirigíveis do Exército alemão engajaram-se nos ataques, ansiosos por demonstrar a mesma eficiência dos pilotos navais. Quando os aliados bombardearam Karlsruhe, o imperador autorizou o lançamento de bombas sobre Londres, porém tais bombardeios somente poderiam ser realizados sobre as docas e terminais ferroviários. Essa precisão de bombardeio não foi conseguida.
Os dirigíveis Zeppelin e Schütte-Lanz realizaram inúmeras incursões sobre à Grã-Bretanha. Suas cargas bélicas eram compostas de bombas de 272 kg. Eles encontravam quase ou nenhuma oposição, até que na noite de 2 para 3 de setembro de 1916, o Tenente William Leefe-Robinson do Royal Flying Corps, 39ª Esquadrilha de Defesa Territorial, abateu o primeiro aeróstato alemão. Embora ainda muito apoiados pelo Exército e pela Marinha alemã, os dirigíveis tiveram suas missões reduzidas drasticamente à medida que a defesa territorial britânica se fortalecia.
Durante os primeiros meses de guerra na frente oriental, todo o potencial dos grandes bombardeiros foi demonstrado. Em 1915, surgiu o bombardeiro alemão Siemens Forssmann, em seguida surgiram os Zeppelin-Staaken. Receberam a designação inicial de aviões do tipo K (Kampfflugzeuge, bombardeiro), que depois foi alterada para aviões do tipo G ou bimotores. A série mais importante foi a dos Gotha G.II, produzida em número limitado em 1916.
No entanto, as primeiras aeronaves alemãs a realizarem bombardeios pertenciam aos tipos B e C, esses eram bem menores do que os tipo G. Entre 1914 e 1915, elas integraram os BA (Brieftauben Abteilunge – destacamento de pombos-correios, um nome em código). A partir dos BA se formaram os KG (Kampfgeschwader, grupos de combate), cada um deles com cerca de 36 aeronaves. Os bombardeios à Grã-Bretanha era tarefa do KG 3, sediado na Bélgica.
 Bombardeiro AEG G.IV
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 Bombardeiro Gotha G.IV
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Em outubro de 1914 surgiu o projeto de bombardear à Grã-Bretanha. Tudo indicava que o exército alemão avançaria até o Canal da Mancha, mas a ofensiva foi detida em Ostend e os alemães foram obrigados a recorrer aos BA. Esses eram capazes de chegar a Dover, mas podiam carregar somente uma ou duas pequenas bombas.
Em 1916, os recém criados bimotores Gotha e Friedrichshafen alocados para as missões sobre o Somme e Verdun. As perdas superaram em muito a capacidade de fabricação e como resultado, adiaram-se para a primavera de 1917 os ataques do KG 3 à Grã-Bretanha.
Em 25 de maio de 1916, 23 Gotha G.IV voando à luz do dia, lançaram cinco toneladas de bombas em diversos pontos do Condado de Kent. Devido ao mau tempo, não conseguiram alcançar Londres e sobrevoaram Gravesend, Maidstone, Ashford e Folkestone, onde seis bombas mataram 95 pessoas e feriram outras 260.
Nos três meses seguintes, ocorreram diversos ataques diurnos. Em um deles, um grupo de G.IV jogaram suas bombas sobre Londres, matando 162 pessoas e ferindo outras 432. Embora tenham resultado em poucos danos materiais, foram atingidas duas estações ferroviárias.
A incapacidade britânica de se defender, provocou protestos dos chamados “Fanáticos do Ar”, liderados por Noel Pemberton-Billing. No parlamento britânico, houveram diversas acusações de negligência criminosa, contra o Conselho de Ministros. O governo então decidiu nomear uma comissão para estudar a melhoria dos meios de defesa anti-aérea. Essa comissão foi presidida pelo General Jan Smuts, um veterano sul-africano que lutou contra os britânicos na Guerra dos Bôeres (1899-1902). A mais importante proposta resultante foi a fusão do Royal Flying Corps (RFC) com o Royal Naval Air Service (RNAS) – as forças aéreas do Exército e da Marinha – numa única organização autônoma, em condições de coordenar a defesa área. Em 1º de abril de 1918 nasce a Real Força Aérea (RAF).
Os bombardeios diurnos foram suspensos, devido a impossibilidade de as aeronaves alemãs atingirem a capital britânica. O KG 3 focou suas missões em ataques noturnos. No primeiro desses ataques, na noite de 3 para 4 de setembro de 1917, uma bomba caiu sobre um alojamento naval em Chatham, matando 131 homens e ferindo 90. Foi o pior saldo de explosão de uma única bomba em toda a guerra.
 Um bombardeiro gigante Zeppelin-Staaken R.VI
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Os britânicos sofreram mais ainda, pois a partir de 1916, foram criados os bombardeiros gigantes alemães. O maior deles era o Zeppelin-Staaken R.VI, com sua envergadura de mais de 42 metros. Podia carregar dez tripulantes e até uma tonelada de bombas. Esses aparelhos integravam duas RFA (Reisenflugzeugabteilungen, esquadrilha de aviões gigantes), a 501 e a 502. Em setembro de 1917, a RFA 501 chegou à Bélgica e uniu-se aos Gotha, em seus ataques noturnos ao sudeste da Inglaterra. Ainda não havia sido aperfeiçoada a precisão dos bombardeios e apesar do maior peso das bombas, o número de baixas diminuiu. Estima-se que, na época, cerca de 300 mil londrinos procuravam abrigo nas estações do metrô, todas as noites.
Os ataques dos “gigantes” e dos Gotha, às vezes acompanhados por dirigíveis, continuaram esporadicamente durante o inverno de 1917/18. No entanto, várias medidas foram adotadas para fortalecer a defesa aérea britânica: linhas de fogo anti-aéreo, barragem de balões e patrulhas de caças. Após algumas experiências noturnas, os Sopwith Camel e os Bristol Fighter começaram a fazer patrulhas em rotas bem definidas. Na noite de 19 para 20 de maio de 1918, trinta e oito aviões Gotha, três “gigantes” e dois dirigíveis partiram para uma missão de bombardeio sobre a Grã-Bretanha. Encontraram uma barragem de trinta mil granadas anti-aéreas e inúmeros caças. Três Gotha foram derrubados pela artilharia e outros três pereceram frente aos caças. Essa missão marcou o fim dos bombardeios com aviões Gotha e “gigantes”.
A forma com que britânicos e franceses começaram a utilizar os bombardeiros aéreos foi ainda menos elaborada que a dos russos e alemães. Em oito de outubro de 1914, dois Sopwith Tabloid da Esquadrilha Eastchurch, baseados na Antuérpia, decolaram para uma missão de bombardeio aos hangares de dirigíveis em Dusseldorf. O tenente-aviador Marix atingiu seu alvo, destruindo o novíssimo Zeppelin Z.IX, enquanto o Comandante-de-esquadrilha Spenser Grey bombardeou a estação ferroviária de Colônia.
Em agosto de 1915 começaram as pesquisas sobre o primeiro bombardeiro britânico, o Handley-Page O/100. Seu protótipo fez o primeiro vôo em 18 de dezembro do mesmo ano, embora só tenha entrado em serviço em novembro de 1916. Enquanto isso, várias aeronaves eram utilizadas provisoriamente como bombardeiros: B.E.2c e RAF R.E.7 britânicos e Caudron G.II, G.IV e Voisin franceses. Até o mês de junho de 1916, a bomba mais pesada que podiam lançar não ultrapassava os 51 kg. A bomba utilizada com maior freqüência era a Hales, de 9 kg. Nesse mesmo mês, foram utilizadas as novas bombas de 153 kg. Sua primeira utilização foi em um bombardeio sobre a estação ferroviária de Lille.
Um passo importante foi dado em agosto de 1916, quando várias esquadrilhas do RFC foram transferidas para diferentes unidades do exército. Essas unidades passaram a realizar operações estratégicas e não mais somente o apoio tático que realizavam até então. Na noite de 16 para 17 de março de 1917, um dos novos O/100 fez o primeiro ataque britânico com um bombardeiro pesado, atingindo a estação ferroviária de Moulins-lès-Metz.
 Um RAF (Royal Aircraft Factory) F.E.2b
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Em outubro de 1917, o RFC formou o 41º Regimento sob o comando do então tenente-coronel C.L.N.Newall, que mais tarde veio a se tornar lorde-marechal da RAF. Esse regimento foi criado com o objetivo de planejar e executar missões de bombardeio sobre alvos industriais na Alemanha. As aeronaves que faziam parte do efetivo do 41º Regimento eram os RAF F.E.2b, Airco D.H.4 e O/100. No dia 17 deste mesmo mês ocorreu o primeiro ataque diurno, realizado por oito aeronaves D.H.4 contra a fábrica de Burbach. Missões como essa, continuaram a ser executadas durante todo o inverno de 1917/1918. Entre outubro de 1917 e junho de 1918, as aeronaves do 41º Regimento realizaram 142 missões de bombardeio, sendo que 57 dessas missões, tinha seus alvos no interior da Alemanha. No final do inverno, as aeronaves da 110ª esquadrilha e da 216ª foram transferidas para o comando francês, na área de Châlons-sur-Marne.
Após a formação da RAF, o comando do 41º Regimento decaiu. Hugh Trenchard, conhecido como o “Pai da Força Aérea Real Britânica”, era um ardente defensor dos bombardeios estratégicos e conseguiu a ampliação do grupo, assim como a sua independência em relação ao comando local do Exército na França. Em junho de 1918, o governo britânico sancionou a formação de uma Força Independente, comandada por Trenchard. Essa Força Independente absorveu as três esquadrilhas restantes do 41º Regimento e o 83º Regimento, que já havia reassumido as duas esquadrilhas que haviam sido emprestadas aos franceses.
Entre junho e novembro de 1918, a Força Independente lançou um total de 550 toneladas de bombas, a maior parte sobre campos de pouso e cidades alemãs. Também nesse período, a unidade perdeu 109 aeronaves e teve 264 tripulantes mortos ou desaparecidos.
 Handley Page O/100, do Royal Naval Air Service
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Até o final da guerra, os pesos das bombas utilizadas foi crescendo gradativamente, até chegar aos 750 kg. Em setembro de 1918 organizou-se o Grupo 27, que abrangia os Regimentos 86 e 87 e deveria ser incorporado à Força Independente. As esquadrilhas desse grupo seriam equipadas com um novo bombardeiro pesado, o Handley-Page V/1500, com seus 38,4 m de envergadura, poderia transportar uma carga de trinta bombas de 113kg ou uma bomba especialmente criada para ele, de 1.497 kg. Porém, apenas três dessas aeronaves foram entregues à RAF até o armistício.
Em seu relatório ao Conselho de Ministros do Parlamento Britânico, o General Smuts escreveu: “... Não está longe o dia em que as operações aéreas, com a devastação de terras inimigas e a destruição em grande escala de centros populosos e industriais, constituirão as principais operações de guerra, às quais ficarão subordinadas as antigas formas de operações terrestres e navais...”. O armistício foi assinado em 11 de novembro de 1918 e a Força Independente foi dissolvida no início de 1919. No entanto, o princípio do bombardeio pesado fora demonstrado de forma convincente e sua concretização se daria pouco mais de duas décadas depois.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
Esse texto é um condensado de algumas publicações que possuo. As fotos foram retiradas de enciclopédias públicas virtuais.
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Paulo Guimarães
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