Artigos IPMS Porto Alegre



A Longa e Extenuante Batalha pelo Coração Alemão



Cesar Augusto Loitzenbauer




“Se hoje a nação alemã, confinada numa área inaceitável, enfrenta um futuro lamentável, isso não é um ditame do Destino. Revoltar-se contra esse estado de coisas não é tampouco uma afronta ao Destino...Ou a Alemanha será uma potência mundial ou não haverá Alemanha. E para ser uma potência mundial ela precisa daquela magnitude que lhe dará a posição necessária no mundo de hoje, e vida aos seus cidadãos.”
Adolf Hitler, em Mein Kampf-págs.:740/2

Uma abordagem sobre Adolf Hitler, este austríaco nascido, quando o Brasil se tornava uma República; que despertou e desperta admiração e ódio, induzindo muitos a raciocínios simplistas, colocando-o como causador de uma das maiores tragédias da humanidade , devido a sua “sede de poder” ou sobre tudo a “intransigência de um louco”, ou a outros tantos que o consideram um salvador da Alemanha, libertando-a da sanha judaica, por lucros e mais lucros; inspiram (e continuarão a inspirar) muitos livros, artigos que relatam fatos e buscam justificativas, contudo esquecem-se do principal...O contexto histórico, que fomentou tal liderança.
Muitos historiadores colocam a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), como uma extensão daquilo que ficou conhecido em sua época, como: A Grande Guerra (1914-1918), sendo o Tratado de Versalhes, que fez a paz retornar a Europa a partir de 1919, igualmente um fator de crescente tensão devido as sanções impostas a derrotada Alemanha, que podem ser melhor entendidas, através das palavras do Ministro da Marinha da Inglaterra, Eric Geddes: “...espremessem o limão germânico até rangerem as sementes”; entre essas sanções figuravam:

“...determinava a entrega de territórios alemães (Alsácia-Lorena à França e um corredor de acesso ao mar para a Polônia), de todas as suas colônias, a entrega do material de guerra, da armada, a redução do exército a cem mil homens, o desmantelamento das defesas, a entrega de parte da frota mercante, locomotivas, gado, carvão, e o pagamento de enormes somas como reparação de guerra (insistência sobretudo da França, pela destruição de seu território), uma vez que a Alemanha e seus aliados foram considerados culpados pelo início da guerra.”(1)

Além da soberania e a economia abalada, os alemães sentiram-se humilhados (diktat), fator este alimentador de um elevado sentimento nacionalista e porque não dizer, revanchista. A inflação alemã atinge um nível estratosférico, quadro que se agrava após o crack da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929. A partir daí começa a ganhar espaço político cada vez maior, um partido até então inexpressivo, o NASDAP - Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e um homem, em uma posição igualmente inexpressiva, que viu malograda em 1923, a tentativa de golpe, o Putsch, que visava restaurar a “dignidade” alemã , perdida após o Tratado de Paz, assinado em Paris. Através do Dolchstosslegende, ou seja, um verdadeiro bálsamo psicológico, que visava restituir a auto-estima perdida, sendo os ideais de supremacia racial e xenofobia, essenciais para a manutenção desta estratégia, a primeira fundamentada em um certo destino manifesto, de uma grande raça (a configurar-se) a ariana, existir para dominar e não ser dominada; a segunda referindo-se ao estranhamento ao diverso, ao buscar-se no estrangeiro, o “bode expiatório” para a grave crise, assim, justificaram-se as perseguições nos setores públicos, nas artes, na vidaq de forma geral. Traços deste princípio, podemos perceber entre vários grupos neonazistas, como os “Carecas do ABC” em São Paulo, que hostilizam o “estrangeiro” nordestino, por considerá-los inferiores, indignos concorrentes ao emprego, etc...
Até chegar-se a solução final, praticada amplamente nos campos de concentração nazista:

“A solução final (eliminação física dos judeus) choca pela sua simples menção. Mas não se pode esquecer também os ciganos no mesmo caso e as populações eslavas (sobretudo russos e poloneses) que segundo os nazistas, deveriam ser eliminadas para deixar seu lugar aos germânicos.”(2)

O que corrobora, para a compreensão do Lebesraum, a busca do espaço vital para o pleno desenvolvimento material e humano da Alemanha. Para Hitler, o enaltecimento do passado germânico fundamentado na História; ou em seus mitos, como Brunhilde (a mais importante das Valquírias), passando pelo deus Wotan; aliado a construção daquilo que denominaria “Punhalada pelas costas”, que seria a explicação para a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, não por uma contingência histórica, mas devido à traição de socialistas e judeus, ao valoroso povo alemão. Logo, tanto socialistas, quanto judeus foram basyante perseguidos pelo III Reich, o que em determinada conjuntura, pode muito bem Ter servido a interesses de grandes nações capitalistas e altos setores da Igreja Católica.
A partir destas premissas, aliaram-se uma boa oratória e eloquência, acrescente-se a isso um grande crescimento econômico, entre a ascensão do III Reich, em 1933 e o início da guerra, algo que inevitavelmente desarticula a cadeia produtiva, apesar de grandes empresas alemãs, como a Siemens, Bayer, Krupp, entre tantas outras, terem utilizado mão-de-obra escrava dos campos de concentração, durante o conflito. Contudo, o inegável é que a expansão territorial e a maior parte das riquezas conquistadas passaram a convergir para o esforço de guerra e não para a qualidade de vida do povo alemão (salvo é claro, se tivessem vencido a guerra). Mas, tal ação construtiva é acompanhada de uma ação destrutiva:

“Em certo sentido deve-se denominar “realizações” de Hitler também a destruição do estado de direito e da estrutura constitucional(...) Realizações destruidoras, que continham tanta energia quanto as construtivas no domínio econômico e militar”(3)

Se o poderio da Krigsmarine (Marinha), Wehrmacht (Exército) e Luftwaffe (Força Aérea) eram enormes; não podemos esquecer das discordâncias, entre a alta oficialidade nazista, especialmente após as batalhas de Stalingrado e El Alamein, sem mencionar o Dia D, que culminaram com o atentado sofrido por Hitler em julho de 1944, justamente pelo desgaste natural e o clima que se gerou em torno da figura do Führer, que estava muito longe de ser um grande estrategista militar, que via opiniões contrárias como um forte indício de traição. Um homem que não nutria certamente os sentimentos mais altruístas, um homem megalomaníaco e intolerante; mas que ascendeu ao poder, somente por uma conjuntura histórica muito específica. Onde as pessoas privadas das mínimas condições de sobrevivência, abriram mão da própria liberdade, conforme conceito da historiadora judia-alemã, naturalizada estadunidense Hanna Arendt.
Às atrocidades, às torturas, às milhares de mortes, propiciadas pelos nazistas nos campos de concentração, nos guetos, contra os intelectuais alemães ou não; que não se inseriam na ordem vigente, não nos permitem negar o Holocausto. Entretanto, cada vez que se pronuncia isto tudo, como os feitos de um “louco”, de um homem que durante a adolescência contraiu uma doença venérea de uma prostituta judia em Viena e daí a passou a odiar os judeus, por ser “homossexual”, por ter um único testículo, por ter sido rejeitado na Escola de Belas Artes de Viena por professores...judeus, claro. Entre tantas outras bobagens irreais ou sem nenhuma importância no contexto que se viveu, publicadas por revistas de grande circulação, que contribuem para o obscurantismo e para dificultar a compreensão dos verdadeiros porques dos lamentáveis episódios iniciados a quase setenta anos; que é essencial ara que as futuras gerações não repitam o que se vivenciouna primeira metade do século passado; mesmo porque, como nos ensina o historiador inglês Andrew Roberts: “Precisamos saber identificar os Führers do futuro, porque de uma coisa podemos Ter certeza: da próxima vez, eles ceramente não estarão usando as reveladoras botas de cano alto e braçadeiras”(4)


Referências Bibliográficas

-HAFFNER, Sebastian. Um tal de Adolf Hitler. São Paulo: Civilização Brasileira, 1985 – Cit.nº3:pág.:33

-HENIG, Ruth. O Tratado de Versalhes. São Paulo: Àtica, 1991.

-ROBERTS, Andrew. Hitler & Churchill Segredos da Liderança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004 – Cit.nº4:pág.:25

-Vizentini, Paulo G. Fagundes. Primeira Guerra Mundial – Relações Internacionais do Século 20. Porto Alegre:Ed. Da Universidade/UFRGS, 1996 – Cit. nº1: pág.:79

-Vizentini, Paulo G. Fagundes. Segunda Guerra Mundial – Relações Internacionais do Século 20. Porto Alegre:Ed. Da Universidade/UFRGS, 1996 – Cit. nº2: pág.:68




Cesar Augusto Loitzenbauer