Artigos IPMS Porto Alegre



Do Encouraçado Arizona ao World Trade Center, Mesmas Justificativas para Diferentes Problemas



Cesar Augusto Loitzenbauer




“A maneira como a inteligência coleta e analisa as informações que recebe é uma questão. O uso que o governo faz destas informações é outra questão”
George Tenet, diretor da CIA em 30/05/03.



A história não se repete a não ser como farsa, nos diz uma das mais importantes premissas para a compreensão de um determinado processo histórico; porém mesmo não sendo cíclica, a história apresenta alguns pontos comuns em suas relações com o tempo e o espaço, além é claro das especificidades muito próprias de cada processo. No dia 7 de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base estadunidense de Pearl Harbor no Havaí, de forma covarde como diriam muitos e a “América daria adeus à inocência”, como diria o então presidente, Franklin Delano Roosevelt; entrando assim, oficialmente os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com o apoio incondicional da maior parte de sua população, afinal muitas vidas de compatriotas seus, haviam sido violentamente tiradas ou transformadas. Mas, o fato é que a possibilidade do ataque nipônico era conhecida no mínimo, desde janeiro do mesmo ano e por uma dessas “coincidências históricas”, os porta-aviões que seriam essenciais nas batalhas disputadas no Oceano Pacífico, deixaram Pearl Harbor, pouco antes daquela fatídica manhã de dezembro, em que centenas de pessoas morreriam, entre as quais, a maioria dos marinheiros do encouraçado Arizona, que permaneceu atracado a mercê do ataque.

Quase sessenta anos depois, em 11 de setembro de 2001, um dos maiores símbolos do poder econômico dos Estados Unidos, o World Trade Center (Centro do Comércio Mundial) seria atacado por terroristas, membros da rede Al Qaeda, que haviam seqüestrado dois grandes aviões comerciais, repletos de passageiros, que seriam lançados sobre as imponentes “Torres Gêmeas”, as fazendo sucumbir em Nova Iorque. O centro da inteligência militar (isto não é um termo contraditório, como imaginam alguns...), da maior potência militar do planeta, o Pentágono, seria pouco depois, também alvo de um atentado, supostamente com outro avião e uma quarta aeronave que se dirigia possivelmente a Casa Branca ou ao Capitólio (?!), cairia nos arredores de Pittsburgh, conforme a versão oficial, pela ação de um grupo de passageiros que entraram em luta com os terroristas que conduziam o avião, sendo essa impossibilidade de manter o controle a causa da queda; neste caso a falta de provas (apresentação negada pela administração Bush/Cheney ou Cheney/Bush ou a própria inexistência das mesmas) ou do depoimento dos envolvidos que morreram no acidente; cogitar a possibilidade de que caças da Força Aérea ou da Marinha dos Estados Unidos tenham abatido este último avião seqüestrado não deve ser considerada absurda. Absurdo sim, seria imaginar que as atuais lideranças dos Estados Unidos admitissem terem tomado tal decisão, uma vez que os passageiros naquele vôo eram em sua maioria cidadãos estadunidenses.

E como o sigilo e não a propaganda, é a alma do negócio para as pessoas que atualmente governam os Estados Unidos, devido sobretudo aos seus negócios privados especialmente no Oriente Médio, onde estão a eles associados os sauditas, podemos compreender algumas questões que envolvem os atentados que mudariam a face do Império: Primeiro que o impacto imediato, após o 11 de setembro foi a legitimação de uma administração que chegava ao seu oitavo mês, com índices de popularidade em baixa, não conseguindo nomear juízes e que já havia perdido a maioria republicana no Senado, maioria esta que fora essencial para a manutenção da fraude ocorrida sobretudo na Flórida, cujo governador era Jeb Bush (irmão do candidato vencedor) onde a maioria da população negra e por conseguinte de baixa renda fora excluída do processo eleitoral (e que seria esquecida, após a passagem do furacão Katrina); onde a responsável pela recontagem dos votos, mais que republicana era uma “bushiniana” convicta; partidários republicanos que foram transportados de Washington para o prédio onde era a feita a recontagem, especialmente para fazer barulho e chutar as portas, a fim de pressionar os funcionários; o próprio sistema eleitoral estadunidense que transferiu a decisão final para a Suprema Corte (toda nomeada anteriormente por George H. W. Bush, que fora presidente de 1988 a 1992, e é o pai do presidente “eleito”). O democrata Al Gore não tinha mesmo como vencer as eleições de 2000... O documentário Fahrenheit-11 de setembro, de Michael Moore, mostra cenas das manifestações populares no dia da posse de George Walker Bush, onde o desfile teve de ser abreviado, perante o volume e densidade da desaprovação daqueles que se fizeram ouvir... A comoção nacional decorrente de uma tragédia anunciada, associada ao Ato Patriota (um conjunto de medidas que cercearia parte das liberdades individuais em prol da segurança, pois o medo seria a melhor arma a ser usada internamente) unificaria o país. Anunciada aos novos ocupantes da Casa Branca, que receberam relatórios do FBI (a polícia federal dos EUA) e da CIA (Agência Central de Inteligência), sobre a organização e a real possibilidade de um grande ataque terrorista no próprio território dos Estados Unidos, feitos por um grupo fundamentalista islâmico, a Al Qaeda, desde maio de 2001. Aquele seleto grupo optaria por ignorar a ameaça e quando ela se concretizou, souberam tirar o melhor proveito político, a legitimação de uma administração ilegítima, decorrente da união do povo estadunidense em torno de um inimigo externo a ser combatido, que seria rapidamente escolhido: o Afeganistão, que era controlado pelos Talebãs que apoiaram a Al Qaeda , foi rapidamente dominado pela força da maior máquina de guerra do planeta, mas a região onde supostamente estaria escondido Osama Bin Laden, apontado como o principal idealizador dos atentados de 11 de setembro, só seria alcançada em novembro, tempo mais que suficiente para o ex-aliado dos EUA, durante a invasão feita pela extinta União Soviética ao Afeganistão (1979) desaparecer. Logo após os atentados, com o espaço aéreo dos Estados Unidos ainda fechado, vários aviões foram autorizados a retirar mais de vinte familiares de Bin Laden do solo estadunidense, bem como, um enorme número de cidadãos sauditas, talvez os únicos muçulmanos que ainda seriam considerados humanos. Em 2003, a “Guerra contra o Terror” avançaria, era a vez do Iraque de Saddan Hussein, que possuiria armas de destruição em massa e que jamais foram encontradas, ser invadido, pois ele apoiaria qualquer grupo terrorista que viesse a se mostrar interessado em atacar os Estados Unidos, acabaria sendo deposto e posteriormente preso, atualmente o ditador iraquiano está sendo julgado por seus crimes e a democracia ocidental têm sido um ideal a ser alcançado no Iraque, a liberdade e todos esses auspiciosos valores que os estadunidenses buscam construir a ferro e fogo na região; porém os seus aliados como a família real da Arábia Saudita, os Fahd, são tão cruéis e sanguinários quanto o ex-ditador iraquiano, porém a “democracia americana”, não está sendo se quer cogitada para chegar naquelas areias do Oriente Médio.

Muito mais que guerras preventivas, para supostamente salvar os estadunidenses e toda a Civilização Ocidental da “barbárie” (os Impérios sempre definiram aqueles que estão além das suas fronteiras, como bárbaros), o grupo que ocupa atualmente a Casa Branca se mostra mais interessado em suas perspectivas econômicas privadas, que a rigor formam a essência do capitalismo, da própria idéia de país presente nos Estados Unidos, sendo a adoção do fundamentalismo protestante uma importante ferramenta. Dick Cheney, o vice-presidente, por exemplo é ligado a várias empresas interessadas em explorar a região, foi diretor da Halliburton que detém enormes facilidades de acesso a contratos. O ex-presidente George H. W. Bush, pai do atual presidente, foi conselheiro durante muito tempo do Carlyle Group, que entre outros ramos se dedica ao de armamentos, indispensáveis a toda a guerra.

A atual administração que permanecerá no poder até 2008, que poderia a exemplo de outra na América, ter sido vítima de um processo de impeachment se a coalizão de forças não lhe fosse favorável; pois graves irregularidades não faltaram: faz do sigilo o seu princípio básico, onde a obstrução das investigações dos atentados ocorridos cinco anos atrás são enormes; que fizeram John W. Dean (ex-conselheiro do presidente Richard Nixon e portanto familiarizado com absurdos)exclamar: “-Quando se sonegam informações importantes , ou o trabalho fica incompleto, ou o povo acreditará no pior”, o que gera toda a sorte de especulações, como a de o Pentágono não ter sido atingido por um avião, e sim por um míssil lançado pelos próprios militares (falcões) estadunidenses, defendida através do livro francês: A Fraude Horripilante, que se tornou sucesso de vendas. Ou outras, realmente absurdas, como a de as fitas dos gravadores das cabines dos quatro aviões não terem sido liberadas pelo governo, por nelas não estarem reproduzidas vozes humanas e sim de alienígenas (ABC News).

Os fatos ocorridos em Pearl Harbor no ano de 1941 e em Nova Iorque no ano de 2001, apresentam várias diferenças e semelhanças que podem ser refletidas, como a de ser Franklin Delano Roosevelt, um estadista que conduziu os Estados Unidos até a sua morte, ser responsável pela implementação de uma política de bem estar social no seio do mundo capitalista, fruto da grave crise de 1929 e de um modelo rival, o socialista. Já George Walker Bush, um neoconservador que pela própria contingência histórica defende ou melhor representa posições totalmente contrárias, onde os interesses privados gerem o Estado. A questão de em 1941, estar se vivendo uma guerra em vias de mundialização e o ataque ser promovido por um país, com exércitos regulares; já em 2001 a guerra foge a uma concepção tradicional e não é feito o ataque por um país e muito menos por forças regulares, e sim por um grupo com ramificações que não se pode exatamente determinar, entre tantas outras. Porém, são as semelhanças que atraem mais o meu olhar, sobre este recorte, que pode parecer anacrônico aos mais academicistas; como o de ambos os ataques poderem ser evitados ou no mínimo atenuados de acordo com a vontade dos dirigentes, uma vez que receberam informações privilegiadas dos órgãos responsáveis de sua época e o fato de colocarem vidas de cidadãos de seu país, como peões em um tabuleiro de xadrez, por diferentes razões e motivações. E o fato de nos anos 40 do século passado, os Estados Unidos estarem consolidando a sua posição como potência política, econômica e militar do planeta, mesmo que tendo um rival a altura até o final dos anos 80. No início do século XXI, já vivenciando o início de uma crise de seu sistema e de sua própria condição como Império, busca através do neoconservadorismo reagir e manter o status quo, elegendo novos inimigos e adotando uma postura mais militarista, que possa exercer o domínio pela força e não apenas pela conquista ideológica ou através de mecanismos mais sutis. Assim, a atual administração Bush/Cheney, busca implementar aquilo que não foi efetivamente conquistado com a primeira administração Bush (a de seu pai), que com o fim da Guerra Fria, vislumbrava o surgimento de uma Nova Ordem Mundial, fundamentada em uma Pax Americana, que só será impedida com a ascensão de uma outra potência que efetivamente rivalize com os Estados Unidos, ou a crise final e talvez não tão rápida através do esfacelamento deste Império, tendo-se então um mundo multipolar.




Publicado originalmente no Informativo Barnabé
Ano I/Nº9: 1ª Quinzena de Setembro/2006




Cesar Augusto Loitzenbauer